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Territórios indígenas em Goiás

antes e após as invasões europeias


Texto completo disponível apenas na versão impressa

Capítulo de Rodrigo Martins dos Santos publicado entre as páginas 27 e 48 da obra BICALHO, Poliene; MOURA, Marlene Ossami de; INY-KARAJÁ, Vanessa Hãtxu. (Org.). Povos Originários. MENDONÇA; JAIME (Coord.). Coleção Goiás +300 - Reflexão e Ressignificação, v. 6. Goiânia: Goiás+300, 2023.


Este capítulo é uma contribuição ao entendimento da localização geográfica dos territórios indígenas antes, durante e após as invasões européias[1], sobretudo no século XVIII, na região onde hoje é chamada de Estado de Goiás.

Mapear territórios no tempo é uma terefa com pouca precisão, especialmente em se tratando dos povos indígenas, devido à inexistência de um Estado centralizado que registrasse e controlasse o tráfego de pessoas. Ademais, o conceito de território na cosmovisão de muitos povos originários é bem mais amplo do que o utilizado nas esferas estatais modernas. Não há fronteiras definidas, os grupamentos humanos se movimentam pelo espaço independentemente de já haver ali outra etnia, pois entendem o solo como um bem inapropriável (MARTINS DOS SANTOS, 2021a).

Martius (1867a) foi pioneiro nesse tipo de mapeamento, sendo autor do primeiro mapa etnolinguístico do Brasil, que agrupa as diversas famílias linguísticas indígenas conhecidas à época.[2] Ratzel (1912 [1891], p. 482; 1909 [1882], p. 28), por sua vez, apresenta a primeira proposta metodológica para o mapeamento de áreas culturais, onde a língua é um dos principais elementos que participam da construção da identidade étnica dos grupos sociais. Esses estudos foram aprimorados por Carl Sauer e Franz Boas, influenciando os mapas de John Mason, Curt Nimuendaju (2002 [1944]) e Eduardo Galvão, sendo aperfeiçoados por Loukotka (1967) e Kaufman (2007).

            O presente texto é focado nos limites do atual Estado de Goiás, a partir de estudos antropogeográficos sobre o Planalto Central Brasileiro (cf. MARTINS DOS SANTOS, 2013). Outrossim, apresenta uma proposta do remodelamento territorial indígena com base no conceito da desterritorialização etnolinguística, que vem sendo aplicado em estudos similares no leste e sudeste do Brasil (MARTINS DOS SANTOS, 2021b).

            A desterritorialização etnolinguística resulta do fenômeno da globalização (RAFFESTIN, 1993 [1980]), que amplifica o processo de homogeneização cultural. Elimina idiomas e identidades ancestrais em favor de uma racionalidade (ou cosmologia) homogênea e europeizada, conduzida pelo colonizador (RATZEL, 1912, p. 191). Por isso, faz-se necessário descolonizá-la (QUIJANO, 2005). Ou seja, repensar o processo de formação do território brasileiro sobre a multiterritorialidade de Abya Yala[3] como uma invasão (ACOSTA, 2016).

            O conceito de território aqui adotado é o de um espaço de poder, mais ou menos delimitado, que possui um sujeito dominante (RAFFESTIN, 1993, p. 143). Sobre um mesmo território, sujeitos equivalentes dificilmente sobrepõem domínios. Dessa forma, território etnolinguístico é o espaço de domínio de determinada família linguística étnica[4]. O sujeito, portanto, é etnolinguístico. Neste sentido, é a porção de terra onde, provavelmente, o idioma das etnias, ali residentes em determinada época, constituía uma mesma família.

    O tronco Macro-Jê não será abordado, visto a falta de consenso demonstrativo (RODRIGUES, 2013). Diferentemente dos troncos Tupi e Indoeuropeu, que possuem paleolínguas mátrias, diversificadas no tempo, as línguas do Brasil central devem ter-se originado de distintas pátrias, por mini-paleogrupos, milênios depois rodeados por nações Tupi.

(...)

 Mapa 1. Territórios etnolinguísticas na região atualmente chamada de Estado de Goiás, início do séc. XVIII.

Cartografia: Rodrigo Martins dos Santos, 2023.

(...)

Mapa 2. Frentes da invasão europeia sobre territórios indígenas em Goiás ao longo do século XVIII.
Cartografia: Rodrigo Martins dos Santos, 2023.

(...)

Considerações Finais

 

            Como visto, os povos originários de Goiás tiveram seu território ancestral esbulhado por invasores, capitaneados pela estratégia colonial europeia. Inicialmente utilizando antigos caminhos indígenas, é provável que as frentes invasoras tenham buscado, em seguida, as regiões menos povoadas, pois acompanharam, em certa medida, as fronteiras territoriais desses povos. Essa estratégia evitava o confronto direto com povos no percurso, nas zonas de maior densidade populacional. Isto, porém, deve ter intensificado o processo de divisão étnica de alguns povos, como os falantes da língua Akwen nas distintas etnias A’uwe-Xavante, Akwê-Xerente e Xakriabá.

            Este capítulo buscou apresentar uma breve introdução à questão territorial indígena em Goiás. No presente livro, o leitor poderá obter informações mais aprofundadas, nos capítulos seguintes, sobre alguns dos povos aqui retratados.

            A causa indígena não é apenas dos povos indígenas, mas de todo cidadão que deseja paz e justiça. Os povos originários de Goiás podem ser enquadrados entre aqueles que mais sofreram genocídio, epistemicídio e esbulho territorial dentre todos do planeta. Para amenizar isso, faz-se necessário reconhecer seu passado e seu presente e lutar pelos direitos territoriais e culturais de seus descendentes, garantidos na Constituição Federal.

            As pressões contra esses direitos continuam sendo emanandas dos mesmos grileiros e latifundiários, herdeiros ideológicos dos bandeirantes. Junto a eles, grupos neopetencostais, sucessores dos missionários cristãos, formam a conhecida bancada BBB (boi, bala, bíblia). Essa retrógrada força política, econômica e social que obstrui a retomada territorial dos povos originários, na tentativa de reduzir ainda mais a diversidade étnica e linguística do país.



[1] As invasões europeias no Brasil configuram-se num complexo de eventos históricos promovido por cortes europeias, sobretudo de Portugal e Espanha, a partir do final do século XV, sob a tutela da Igreja Católica, e secundariamente por França, Holanda e Inglaterra, dando origem às bases da formação do povo luso-brasileiro e, posteriormente, o Estado Brasileiro (cf. RIBEIRO, 2011).

[2] Igualmente introduziu o termo “Gê” para denominar a família linguística atualmente conhecida como Jê. Tal escolha é baseada no fato de que muitos povos dessa família utilizavam esse termo para se autodenominar, como Apinagez, Crangez, Kempokatagê, Piocobjê, Kemkatejé, Kanakatejé, Krengez, entre outros. A família linguística Jê abrange a maioria dos povos que habitavam os cerrados de Goiás, São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Maranhão e Piauí durante as invasões europeias. Conjuntamente, o referido mapa apresenta a primeira proposta de rota de migração de povos Tupi-Guarani da Amazônia para o litoral brasileiro.

[3] Abya Yala é como o continente americano é chamado pelos povos nativos, conforme afirmado na “Declaración de Kito” (2004), da II Cumbre Continental de los Pueblos y Nacionalidades Indígenas de Abya Yala.

[4] O conceito de família linguística surgiu da necessidade de se agrupar as línguas em função de uma origem comum, uma mesma protolíngua. A relação de diversas famílias com uma protolíngua principal mais antiga é chamada de tronco linguístico. Os dialetos, por sua vez, seriam as pequenas variações dentro de uma mesma língua. A importância do idioma para o agrupamento das etnias se dá em virtude de que é um critério mais seguro de classificação cultural do que outros traços étnicos (CAMARA Jr., 1977, p. 140-142).


Jornal da USP: Desmatamento é quatro vezes menor onde há povos indígenas e comunidades tradicionais

Estudo mapeou refúgios bioculturais em região do Brasil onde ocorre o encontro de três biomas: Cerrado, Mata Atlântica e Caatinga

Matéria publicada no Jornal da USP em 06/02/2025. Acesse aqui o original.

Texto: Pedro Seno (Serviço de Comunicação Social da FFLCH)

Edição: Silvana Salles

Arte: Diego Facundini 



Brigada de incêndio da Prevfogo composta com membros da comunidade quilombola Kalunga, durante simulação de combate ao fogo no cerrado no Engenho II, em Cavalcante (GO). Registro realizado em 15/09/2023 - Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Na região entre os estados de Minas Gerais, Bahia e Espírito Santo ocorre o encontro de três biomas: o Cerrado, a Mata Atlântica e a Caatinga. Essa é uma das regiões de maior biodiversidade do mundo e também uma das regiões com maior diversidade de línguas e culturas no país. Nos locais onde ainda existem florestas nativas, vivem indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais. Segundo o pesquisador Rodrigo Martins dos Santos, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, essa confluência de biomas e povos, chamada de “Refúgio Biocultural”, é responsável por manter o desmatamento na região quatro vezes menor do que em outras áreas.

Rodrigo abordou esse tema em sua tese de doutorado, intitulada Refúgios Bioculturais no Centro-Leste do Brasil: Paisagens e Territorialidades da Sociobiodiversidade. Sob orientação da professora Sueli Angelo Furlan, o pesquisador defendeu a tese em 2024 no âmbito do programa de pós-graduação em Geografia Física da FFLCH.

A ideia da tese foi mostrar que tanto a vida natural quanto a cultura possuem uma relação direta. Essa visão faz parte do ponto de vista da Antropogeografia, uma área que estuda a distribuição da espécie humana no ambiente. Para ela, não existe dissociação entre os seres humanos e a biodiversidade.

O conceito da sociobiodiversidade, presente no título da tese, apareceu para Rodrigo quando esteve a trabalho na Organização das Nações Unidas (ONU) e conheceu um livro sobre diversidade biocultural, que trata do contato entre biodiversidade e diversidade de culturas.

Território como refúgio

O pesquisador iniciou a pesquisa com um levantamento de territórios etnolinguísticos do país. Como base, tomou os mapas criados na década de 1940 pelo etnólogo alemão Curt Nimendajú, que havia registrado 106 etnias na época. Em sua tese, finalizada em 2024, foram documentadas 186 etnias. De acordo com Rodrigo, o aumento se deve ao avanço das tecnologias e instituições de pesquisa de dados na atualidade. “Nós conseguimos preencher algumas lacunas deixadas pelo mapa de Nimendajú. Durante a minha banca, disse aos professores que ele estaria feliz com isso”, comenta o pesquisador.

O trabalho resultou em 82 mapas, 10 quadros e 9 tabelas que analisaram etnias, línguas, ocupações europeias e retração dos domínios de natureza ao longo dos séculos e a existência dos refúgios bioculturais. “O refúgio biocultural é o local onde as culturas se refugiaram [após o avanço da desnaturação]. São locais que abrigaram os indígenas e outros povos tradicionais, onde eles encontraram espaço para resistir”, completa Rodrigo. 

Rodrigo Martins dos Santos atualizou mapa de etnólogo alemão- Foto: CV Lattes

Das 186 etnias descobertas que existiam antes da chegada dos europeus, foram documentados 34 refúgios de povos indígenas atuais e 14 de outras comunidades tradicionais. Segundo Rodrigo, a redução histórica coincide com a perda da biodiversidade e, onde estão os refúgios, a taxa de desmatamento é quatro vezes inferior à média regional. Para o pesquisador, isso reforça a tese de que os povos e comunidades tradicionais contribuem com a preservação da biodiversidade no país.

Mapa da desnaturação ao longo dos séculos. Em azul, os refúgios bioculturais; em verde, redutos de biodiversidade; em bege e em vermelho, regiões progressivamente desnaturadas - Foto: Reprodução/Tese/ Rodrigo Martins dos Santos

Um País multiétnico

A pesquisa também contribuiu para a área de linguística. Durante a busca, descobriu-se que determinadas línguas eram exclusivas de um único ambiente. As línguas da família Puri, que não possuem povos remanescentes hoje em dia, e as línguas Borum, dos atuais Krenak, são faladas apenas no domínio da Mata Atlântica. Já as línguas da família Kariri são particulares do ambiente da Caatinga. A família Jê está mais situada no meio Cerrado.

Porém, quando observaram as línguas da família Maxakali, dos Pataxós, estas são faladas tanto na Mata Atlântica quanto no Cerrado. O mesmo ocorre com a família de línguas Kamakãs, presentes na Caatinga e Mata Atlântica. O destaque foi para a família Tupi Guarani, a mais versátil de todas, falada em todos os ambientes, levantando a hipótese de, por esse motivo, ter sido o idioma selecionado pelos europeus, séculos atrás, para se tornar língua franca do país, além de ter sido base para o desenvolvimento do Nheengatu.

Na avaliação de Rodrigo, a tese ajuda a compreender mais o próprio país e avança nos estudos etnográficos e etnolinguísticos. “O Brasil tem que se reconhecer mais, em suas origens, diversidades e se estudar mais. Isto está previsto em lei. Merecemos nos entender mais como um país multiétnico”, concluiu o autor.

Territórios etnolinguísticos no século 16 - Foto: Reprodução/Tese/ Rodrigo Martins dos Santos

FFLCH em áudio (podcast): Desmatamento é quatro vezes menor onde há povos indígenas e comunidades tradicionais

Para além do levantamento de dados sobre redução de áreas verdes, estudo ampliou conhecimento sobre etnias e línguas originárias do Brasil. 


Ficha Técnica

Reportagem: Pedro Seno 

Locução: Pedro Seno Gravação e 

Edição: Pedro Seno e Renan Braz 

Música: Journey por Declan DP




Para acessar o podcast, clique no link abaixo:

FFLCH-USP (divulgação científica): Desmatamento é quatro vezes menor onde há povos indígenas e comunidades tradicionais

Para além do levantamento de dados sobre redução de áreas verdes, estudo ampliou conhecimento sobre etnias e línguas originárias do Brasil


Texto publicado no site da FFLCH/USP

Por
Pedro Seno
Data de Publicação
Editoria



Imagem de uma floresta - Fonte: Freepik

Na região entre os estados de Minas Gerais, Bahia e Espírito Santo, ocorre o encontro de três biomas: o Cerrado, a Mata Atlântica e a Caatinga. Essa é uma das regiões de maior biodiversidade do mundo e também uma das regiões com maior diversidade de línguas e culturas no país. Nos locais onde ainda existem florestas nativas, estão situados também indígenas, quilombolas e outras culturas tradicionais, cuja combinação é chamada “Refúgio Biocultural”, região em que o desmatamento é quatro vezes menor do que em outras áreas.

Segundo o pesquisador Rodrigo Martins dos Santos, do Programa de Pós-Graduação em Geografia Física da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, a ideia de sua tese de doutorado era mostrar que tanto a vida natural quanto a cultura possuem uma relação direta. Essa visão faz parte do ponto de vista da Antropogeografia, uma área que estuda a distribuição da espécie humana no ambiente. Para ela, não existe dissociação entre os seres humanos e a biodiversidade.

O conceito da sociobiodiversidade apareceu para Rodrigo quando esteve a trabalho na Organização das Nações Unidas (ONU) e conheceu um livro sobre diversidade biocultural, que trata do contato entre biodiversidade e diversidade de culturas .

O pesquisador iniciou um levantamento de territórios etnolinguísticos do país. Como base, tomou os mapas criados na década de 1940 pelo etnólogo alemão Curt Nimendajú, que havia registrado 106 etnias na época. Em sua tese, finalizada em 2024, foram documentadas 186 etnias. De acordo com Rodrigo, o aumento se deve ao avanço das tecnologias e instituições de pesquisa de dados na atualidade. “Nós conseguimos preencher algumas lacunas deixadas pelo mapa de Nimendajú. Durante a minha banca, disse aos professores que ele estaria feliz com isso”, comenta o pesquisador.

O trabalho produziu 82 mapas, 10 quadros e 9 tabelas que analisaram etnias, línguas, ocupações europeias, retração dos domínios de natureza ao longo dos séculos e a existência dos refúgios bioculturais. “O refúgio biocultural é o local onde as culturas se refugiaram [após o avanço da desnaturação]. São locais que abrigaram os indígenas e outros povos tradicionais, onde eles encontraram espaço para resistir”, completa Rodrigo.

Das 186 etnias descobertas que existiam antes da chegada dos europeus, foram documentados 34 refúgios de povos indígenas atuais e 14 de outras comunidades tradicionais. Segundo Rodrigo, a redução histórica coincide com a perda da biodiversidade e, onde estão os refúgios, a taxa de desmatamento é quatro vezes inferior à média regional. Para o pesquisador, isso reforça a tese de que os povos e comunidades tradicionais contribuem com a preservação da biodiversidade no país.

Mapa da desnaturação ao longo dos séculos

A pesquisa também contribuiu para a área de linguística. Durante a busca, descobriu-se que determinadas línguas eram exclusivas de um único ambiente. As línguas da família Puri, que não possuem povos remanescentes hoje em dia, e as línguas Borum, dos atuais Krenak, são faladas apenas no domínio da Mata Atlântica. Já as línguas da família Kariri são particulares do ambiente da Caatinga. A família Jê está mais situada no meio Cerrado. Porém, quando observaram as línguas da família Maxakali, dos Pataxós, estas são faladas tanto na Mata Atlântica quanto no Cerrado. O mesmo ocorre com a família de línguas Kamakãs, presentes na Caatinga e Mata Atlântica. O destaque foi para a família Tupi Guarani, a mais versátil de todas, falada em todos os ambientes, levantando a hipótese de, por esse motivo, ter sido o idioma selecionado pelos europeus, séculos atrás, para se tornar língua franca do país, além de ter sido base para o desenvolvimento do Nheengatu.

Territórios etnolinguísticos no século 16\. Reprodução: Tese/ Rodrigo Martins dos Santos

Na avaliação de Rodrigo, a tese ajuda a compreender mais o próprio país e avança nos estudos etnográficos e etnolinguísticos. “O Brasil tem que se reconhecer mais, em suas origens, diversidades e se estudar mais. Isto está previsto em lei. Merecemos nos entender mais como um país multiétnico”, concluiu o autor.

A tese de doutorado Refúgios Bioculturais no Centro-Leste do Brasil: Paisagens e Territorialidades da Sociobiodiversidade de Rodrigo Martins dos Santos e orientada por Sueli Angelo Furlan foi defendida em 2 de setembro de 2024, no âmbito do programa de pós-graduação em Geografia Física da FFLCH.



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Clique aqui para ler a matéria completa no site da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. 

Refúgio Biocultural e Redução Desnaturada

Mapeamento da Desterritorialização de Povos Indígenas no Leste e Sudeste do Brasil (1500-2024) 

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Geografia Física da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo como parte dos requisitos para obtenção do grau de doutor em Ciências, modalidade Geografia, área Geografia Física.

Autor: Rodrigo Martins dos Santos (geógrafo, mestre em sustentabilidade junto a povos e territórios indígenas).

Título: Refúgio Biocultural e Redução Desnaturada: mapeamento da desterritorialização de povos indígenas no leste e sudeste do Brasil (1500-2024)

Palavras-Chave: Antropogeografia. Paisagem Biocultural. Biogeografia Cultural. Geografia Socioambiental. Diversidade Biocultural


Modelo de evolução dos Refúgios Bioculturais e da Redução Desnaturada.




RESUMO EM PORTUGUÊS

A presente investigação doutoral visou elucidar as complexas inter-relações entre a redução da biodiversidade e a diminuição da diversidade cultural, abordando especificamente o conceito de diversidade biocultural, conforme delineado por Maffi (2001) e Clark (2002). O escopo geográfico do estudo compreendeu os estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia e Sergipe. A pesquisa concentrou-se na identificação e mapeamento dos processos espaciais (como emergência, resistência, fragmentação e extinção) que configuram a dinâmica dessa diversidade biocultural, com atenção particular à delimitação de redutos e refúgios bioculturais e à explicação dos fenômenos que os afetam, com ênfase nas nações indígenas. A investigação adotou uma abordagem epistemológica holística, buscando superar as barreiras de segmentação e especialização típicas das disciplinas científicas, promovendo, assim, uma compreensão mais profunda da realidade complexa (Morin, 2003). A metodologia central consistiu na Antropogeografia (Ratzel, 1909; 1912), enriquecida pelos princípios críticos de Raffestin (1993), bem como por contribuições da Geografia Cultural (Sauer, 1925) e da Cartografia Sistêmica (Lacoste, 1988). Dos 82 mapas, 10 quadros e 9 tabelas produzidos, destacam-se aqueles que representam os territórios originários de oito famílias etnolinguísticas das 186 etnias registradas na região antes das invasões europeias, correlacionados com a biodiversidade predominante; bem como aqueles que apresentam, no período de 1500 a 2024, a retração dos territórios de biodiversidade e cultura e o avanço do desmatamento, evidenciando o processo de “redução desnaturada”. Os resultados finais documentam a existência de refúgios bioculturais de 34 povos indígenas remanescentes e de 14 comunidades tradicionais, indicando que a taxa de desmatamento nesses refúgios foi quatro vezes inferior à média regional nos últimos 24 anos. Isso evidencia o papel de guardiões que esses grupos sociais exercem na preservação da biodiversidade, mesmo em face desse processo de desnaturação. As conclusões apontam para a ameaça histórica à diversidade biocultural, resultante desse processo, instaurado inicialmente pelos núcleos estabelecidos pelos primeiros invasores europeus e atualmente intensificado pelas forças da globalização. Em síntese, esta pesquisa e os mapas produzidos contribuem para uma compreensão ampliada da diversidade biocultural no Brasil, além de fomentar sua conservação e fortalecer o empoderamento de povos indígenas e de outros grupos bioculturalmente estabelecidos, a exemplo de quilombolas e outras comunidades tradicionais, autênticos guardiões da biodiversidade.


ARQUIVOS COM A TESE

Clique aqui para baixar a tese. 

Clique aqui para baixar o anexo (mapas em tamanho A0).

A versão disponível acima foi revisada pelo autor em novembro de 2024. Para ter acesso a versão original visite o Banco Digital de Teses e Dissertações da da Universidade de São Paulo, ou clique nos links a seguir: 

Página da tese no TesesUSP:

Tese no TesesUSP:



BANCA EXAMINADORA


Banca-examinadora da tese: da direita para a esquerda: Marcos Bernardino de Carvalho; Sueli Angelo Furlan; Mônica Celeida Rabelo Nogueira; Cristiane de Assis Portela; e Rodrigo Martins dos Santos.

Data da Defesa Pública: 02 Set. 2024

Local: Sala da Pós-Graduação do Departamento de Geografia da Faculdade e Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

Orientadora (Presidente da banca-examinadora): Sueli Angelo Furlan (Bióloga e Geógrafa, mestre e doutora em Geografia Física). Professora do Programa de Pós-Graduação em Geografia Física da USP.

Examinador-interno: Marcos Bernardino de Carvalho (Geólogo e Geógrafo, mestre em Geografia Humana, doutor em Ciências Sociais). Professor do Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana da USP.

Examinadora-externa: Mônica Celeida Rabelo Nogueira (Antropóloga, mestre em Desenvolvimento Sustentável, doutora em Antropologia). Professora do Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB.

Examinadora-externa: Cristiane de Assis Portela (Historiadoa, mestre e doutora em História). Professora do Departamento de História da UnB.


ÁUDIO-VISUAL DA DEFESA PÚBLICA




Defesa Pública da tese "Refúgio Biocultural e Redução Desnaturada" por Rodrigo M. dos Santos. Filmado por Mariana Mendes de Sousa.

Clique aqui para baixar o vídeo da defesa pública.

Clique aqui para ver o vídeo da defesa pública no YouTube.

Clique aqui para baixar a apresentação da defesa.

Clique aqui para ver a avaliação da Profª Monica Celeida Rabelo Nogueira.

Clique aqui para ver a avaliação da Profª Cristiane de Assis Portela <em breve>.

Clique aqui para ver a avaliação da Profª Marcos Bernardino de Carvalho <em breve>.

Clique aqui para ver a avaliação da orientadora Profª Sueli Angelo Furlan <em breve>.


– ABSTRACT IN ENGLISH – 

Title: Biocultural Refugia and Denatured Reduction: Mapping the Deterritorialization of Indigenous Peoples in Eastern and Southeastern Brazil (1500-2024).

Keywords: Anthropogeography. Biocultural Landscape. Cultural Biogeography. Socioenvironmental Geography. Biocultural Diversity.

Abstract: The present doctoral research aimed to elucidate the complex interrelations between biodiversity loss and the decline in cultural diversity, specifically addressing the concept of biocultural diversity as outlined by Maffi (2001) and Clark (2002). The geographical scope of the study encompassed the states of São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia, and Sergipe. The research focused on identifying and mapping spatial processes (such as emergence, resistance, fragmentation, and extinction) that shape the dynamics of this biocultural diversity, with particular attention to the delimitation of biocultural strongholds and refuges and to explaining the phenomena that affect them, with emphasis on indigenous nations. The investigation adopted a holistic epistemological approach, aiming to transcend the segmentation and specialization barriers typical of scientific disciplines, thus fostering a deeper understanding of complex reality (Morin, 2003). The central methodology consisted of Anthropogeography (Ratzel, 1909; 1912), enriched by the critical principles of Raffestin (1993), as well as contributions from Cultural Geography (Sauer, 1925) and Systemic Cartography (Lacoste, 1988). Among the 82 maps, 10 charts, and 9 tables produced, notable examples include those depicting the original territories of eight ethnolinguistic families among the 186 ethnicities recorded in the region prior to European invasions, correlated with the predominant biodiversity; as well as those that portray, from 1500 to 2024, the contraction of biodiversity and cultural territories and the advance of deforestation, highlighting the process of "denatured reduction". The final results document the existence of biocultural refuges of 34 remaining indigenous nations and 14 traditional populations (peasants), indicating that the deforestation rate in these refuges has been four times lower than the regional average over the past 24 years. This highlights the role of guardians that these social groups play in the preservation of biodiversity, even in the face of this process of de-naturization. The findings point to a historical threat to biocultural diversity resulting from this process, initially established by settlements created by the first European invaders and currently intensified by the forces of globalization. In summary, this research and the produced maps contribute to an expanded understanding of biocultural diversity in Brazil, fostering its conservation and strengthening the empowerment of indigenous peoples and other bioculturally established groups, such as the quilombola (Afro-Brazilians) and other traditional populations (peasants), who are authentic guardians of biodiversity.



– RESUMEN EN CASTELLANO –

Título: Refugio Biocultural y Reducción Desnaturalizada: Mapeo de la Desterritorialización de los Pueblos Indígenas en el Este y Sureste de Brasil (1500-2024)

Palabras clave: Antropogeografía. Paisaje Biocultural. Biogeografía Cultural. Geografía Socioambiental. Diversidad Biocultural.

Resumen: La presente investigación doctoral tuvo como objetivo esclarecer las complejas interrelaciones entre la reducción de la biodiversidad y la disminución de la diversidad cultural, abordando específicamente el concepto de diversidad biocultural, según lo delineado por Maffi (2001) y Clark (2002). El alcance geográfico del estudio incluyó los estados de São Paulo, Río de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Bahía y Sergipe. La investigación se centró en la identificación y mapeo de los procesos espaciales (como emergencia, resistencia, fragmentación y extinción) que configuran la dinámica de esta diversidad biocultural, con especial atención a la delimitación de reductos y refugios bioculturales y a la explicación de los fenómenos que los afectan, poniendo énfasis en las naciones indígenas. La investigación adoptó un enfoque epistemológico holístico, buscando superar las barreras de segmentación y especialización típicas de las disciplinas científicas, promoviendo así una comprensión más profunda de la realidad compleja (Morin, 2003). La metodología central consistió en la Antropogeografía (Ratzel, 1909; 1912), enriquecida con los principios críticos de Raffestin (1993), así como con aportes de la Geografía Cultural (Sauer, 1925) y de la Cartografía Sistémica (Lacoste, 1988). De los 82 mapas, 10 cuadros y 9 tablas producidos, destacan aquellos que representan los territorios originarios de ocho familias etnolingüísticas de las 186 etnias registradas en la región antes de las invasiones europeas, correlacionados con la biodiversidad predominante; así como aquellos que muestran, en el período de 1500 a 2024, la retracción de los territorios de biodiversidad y cultura y el avance de la deforestación, evidenciando el proceso de “reducción desnaturada”. Los resultados finales documentan la existencia de refugios bioculturales de 34 naciones indígenas remanentes y de 14 comunidades tradicionales (campesinas), indicando que la tasa de deforestación en estos refugios fue cuatro veces inferior a la media regional en los últimos 24 años. Esto evidencia el papel de guardianes que estos grupos sociales ejercen en la preservación de la biodiversidad, incluso ante este proceso de desnaturación. Las conclusiones apuntan a la amenaza histórica a la diversidad biocultural, resultado de este proceso, instaurado inicialmente por los núcleos establecidos por los primeros invasores europeos y actualmente intensificado por las fuerzas de la globalización. En síntesis, esta investigación y los mapas producidos contribuyen a una comprensión ampliada de la diversidad biocultural en Brasil, además de fomentar su conservación y fortalecer el empoderamiento de los pueblos indígenas y otros grupos bioculturalmente establecidos, como los quilombolas (afrodescendientes) y otras comunidades tradicionales, auténticos guardianes de la biodiversidad.




– RÉSUMÉ EN FRANÇAIS –

Titre : Refuge Bioculturel et Réduction Dénaturée : Cartographie de la Déterritorialisation des Peuples Autochtones dans l’Est et le Sud-Est du Brésil (1500-2024)

Mots-clés: Antropogéographie. Paysage bioculturel. Biogéographie culturelle. Géographie socio-environnementale. Diversité bioculturelle.

Résumé: La présente recherche doctorale a visé à élucider les interrelations complexes entre la réduction de la biodiversité et le déclin de la diversité culturelle, en abordant spécifiquement le concept de diversité bioculturelle, tel que défini par Maffi (2001) et Clark (2002). Le champ géographique de l'étude comprenait les États de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia et Sergipe. La recherche s'est concentrée sur l'identification et la cartographie des processus spatiaux (tels que l’émergence, la résistance, la fragmentation et l'extinction) qui structurent la dynamique de cette diversité bioculturelle, avec une attention particulière à la délimitation des refuges bioculturels et à l'analyse des phénomènes qui les affectent, en mettant l'accent sur les nations autochtones. L'enquête a adopté une approche épistémologique holistique, cherchant à surmonter les barrières de segmentation et de spécialisation typiques des disciplines scientifiques, favorisant ainsi une compréhension plus profonde de la réalité complexe (Morin, 2003). La méthodologie centrale reposait sur l'Anthropogéographie (Ratzel, 1909; 1912), enrichie par les principes critiques de Raffestin (1993), ainsi que par les apports de la Géographie Culturelle (Sauer, 1925) et de la Cartographie Systémique (Lacoste, 1988). Parmi les 82 cartes, 10 tableaux et 9 graphiques élaborés, se distinguent ceux qui représentent les territoires d'origine de huit familles ethnolinguistiques des 186 ethnies recensées dans la région avant les invasions européennes, en corrélation avec la biodiversité prédominante ; ainsi que ceux couvrant la période de 1500 à 2024, illustrant la régression des territoires de biodiversité et de culture et la progression de la déforestation, témoignant du processus de « réduction dénaturée ». Les résultats finaux documentent l'existence de refuges bioculturels pour 34 peuples autochtones restants et 14 populations traditionnelles (paysannes), indiquant que le taux de déforestation dans ces refuges a été quatre fois inférieur à la moyenne régionale au cours des 24 dernières années. Cela met en évidence le rôle de gardiens que ces groupes sociaux exercent dans la préservation de la biodiversité, même face à ce processus de dénaturation. Les conclusions soulignent la menace historique pesant sur la diversité bioculturelle, résultant de ce processus, instauré initialement par les noyaux établis par les premiers envahisseurs européens et actuellement intensifié par les forces de la mondialisation. En synthèse, cette recherche et les cartes produites contribuent à une compréhension élargie de la diversité bioculturelle au Brésil, tout en encourageant sa conservation et en renforçant l’autonomisation des peuples autochtones et d’autres groupes bioculturellement établis, tels que les communautés quilombolas et autres populations traditionnelles, véritables gardiens de la biodiversité.