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Florestas Culturais em Áreas Protegidas

Caso Povo Guarani versus Parques Estaduais Serra do Mar e Jaraguá


RESUMO

O presente texto gira em torno do conceito de floresta cultural, um tipo de paisagem cultural construída por povos e comunidades tradicionais (PCTs) floresteiras, ou seja, cujas culturas têm a floresta como elemento central ou muito importante na manutenção de seus modos de vida. Para isso, buscamos responder a seguinte questão: É possível identificar florestas culturais em São Paulo? Há conciliação entre a proteção das florestas e das culturas a elas associadas? Na tentativa de buscar respondê-las, iniciamos apresentando resumidamente o conceito de floresta cultural, com alguns exemplos e sua importância para os PCTs. Em seguida, denotamos o que diferencia um PCT da sociedade nacional, sobretudo pelo Estado brasileiro, com destaque aos vínculos estabelecidos com os ecossistemas. Na última parte, para entender melhor o conflito entre PCTs e UCs, destacamos um caso na capital paulista, o da sobreposição entre as terras indígenas Guarani do Jaraguá e Tenondé Porã, com os parques estaduais do Jaraguá e Serra do Mar (Núcleo Curucutu). As conclusões são de que para se identificar uma floresta cultural em São Paulo é necessário, além de conhecer suas estruturas e processos ecológicos, o entendimento das culturas humanas a eles associados. E para protegê-las, é imprescindível o reconhecimento do papel dos povos e comunidades tradicionais na produção de paisagens florestais e de outros ecossistemas.



INTRODUÇÃO

            A pesquisa centra no conceito de florestas culturais, apresentado por Willian Ballée (2013) como um tipo de paisagem cultural. Sueli Furlan (2006) salienta a importancia da territorialidade humana para a identificação das florestas culturais. Assim, os povos e comunidades tradicionais (PCTs) são chave para esse entendimento, pois têm como cosmologia a interconexão com os seres vivos ou não que compartilham o mesmo território (DIEGUES, 2008). Estas comunidades tradicionais conquistaram direitos na legislação brasileira para garantir a continuidade de suas culturas vincuadas à biodiversidade existente em seus territórios (MARETTI; SIMÕES, 2020).

            No entanto, há conflito entre os modos-de-vida de PCTs e a gestão de algumas unidades de conservação, sobretudo os parques nacionais e estaduais. O conflito enfocados aqui se basea no fato de que para alguns gestores deste tipo de área protegida não é possível conceber a biodiversidade alvo de conservação como algo produzido por comunidades pré-existentes ao parque.

            Dentro dessa problemática, o objetivo principal do presente artigo é estudar se o conceito de floresta cultural é utilizado na gestão de unidades de conservação do tipo parque estadual quando há sobreposição com territórios de povos indígenas ou outra comunidade tradicional. Tal estudo justifica-se por dois principais motivos: 1 – dar maior visibilidade às questões étnicas nos estudos sobre a conservação da natureza; 2 – observar se há entendimento entre gestores de parques do fato de que as florestas por eles protegidas podem ter sido produzidas por culturais humanas.

            O caso aqui escolhido trata da sobreposição territorial entre dois parques estaduais do Estado de São Paulo: o Serra do Mar e o Jaraguá, com territórios do povo indígena Guarani.

            A metodologia baseou-se na leitura dos planos de manejo de ambos os parques (SÃO PAULO, 2008; 2010) e nos laudos antropológicos de reconhecimento das terras indígenas afetadas (BRASIL, 2010; 2013). Neles, observamos se há o reconhecimento de florestas culturais nas respectivas unidades de conservação, e se os direitos do povo guarani que habita o mesmo território dos parques anteriormente à suas criações foram respeitados e em que medida.

            As conclusões são de que o termo “floresta cultural” inexiste nesses planos, pelo contrário, a biodiversidade é tida como natural em todos os documentos. E os direitos territoriais dos povos indígenas que convivem no mesmo espaço dos parques não são respeitados em sua plenitude.

Concluímos, ainda, que para se identificar uma floresta cultural em São Paulo é necessário, além de conhecer suas estruturas e processos ecológicos, o entendimento das culturas humanas a eles associados. E para protegê-las, é imprescindível o reconhecimento do papel dos povos e comunidades tradicionais na produção de paisagens florestais e de outros ecossistemas.

 (...)

Figura 1. Áreas etnolinguísticas, no atual Estado de São Paulo, por volta de 1500 EC.

Adaptado de Rodrigo M. Santos (2021). 

(...)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

            No presente texto, na tentativa de se identificar florestas culturais em São Paulo, buscamos apresentá-las como uma paisagem cultural fruto da ação de culturas tradicionais sobre estruturas e processos de ecossistemas florestais. Atualmente, os povos e comunidades tradicionais que participam dessa produção são reconhecidos pelo Estado como agentes da sustentabilidade.

            Por outro lado, mesmo com esse reconhecimento, eles enfrentam conflitos com gestores preservacionistas de unidades de conservação. Para exemplificar esse conflito, destacamos aqui dois casos envolvendo povos Guarani e parques estaduais. Para superar esse conflito, é necessário que o Estado e seus agentes reconheçam que não apenas a floresta, mas os ecossistemas como um todo, são resultantes de processos históricos que envolvem os povos que neles habitam há centenas de anos.

            Destarte, para se identificar qualquer floresta cultural é necessário, além de se conhecer suas estruturas e processos ecológicos, o entendimento das culturas humanas a eles associados historicamente. E para conservá-las, é imprescindível o reconhecimento do papel dos povos e comunidades tradicionais na produção dessas paisagens bioculturais.

            Consequentemente, o esclarecimento de outras questões pode ajudar nesse entendimento, por exemplo: como identificar quais as estruturas e processos ecológicos são resultantes de ações culturais? Como saber se uma floresta é de fato cultural? Onde elas estão espalhadas pela Mata Atlântica e no interior do Estado de São Paulo? Esses são temas para outras investigações.

 

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Artigo publicado nos anais do XIV ENANPEGE - Encontro Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia, organizado pela ANPEGE - Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia; e que ocorreu na cidade de Campina Grande-PB, em 2021. ISSN 2175-8875.

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Alimentação na oralidade Xakriabá

REFLEXOS DA COLONIZAÇÃO

Rodrigo Martins dos Santos
Esther Katz
Santo Caetano Barbosa, Cacique Xakriabá da aldeia Morro Vermelho (Catito)

RESUMO

Apresentamos elementos da alimentação da etnia Xakriabá a partir de relatos orais de seus anciões, de aldeias no município de São João das Missões, Minas Gerais. O problema baseia-se no seguinte questionamento: Quais eram os alimentos (ingredientes e pratos) que haviam no passado e que atualmente não se encontram mais junto ao povo Xakriabá? Que fatores contribuíram para essa transformação alimentar? Utilizamos a metodologia da história de vida por meio de registro de entrevistas com questões abertas. A conclusão é de que muitas espécies nativas utilizadas na alimentação dos antigos indígenas dessa etnia desapareceram das roças de seus descendentes, bem como grande parte dos pratos da gastronomia tradicional. Os motivos foram o abandono de áreas tradicionais devido a pressão do avanço da frente colonial-pecuarista dos luso-brasileiros e a chegada de alimentos industrializados

Palavras-chave: Território, Alimentação, Oralidade, Indígena, Xakriabá.


Alimentos tradicionais do povo Xakriabá, levantados durante as entrevistas. Org. Rodrigo Santos (2012)


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Projeto Tenonderã - Nosso Futuro Comum

Realização de encontro na APA Capivari-Monos (aldeia Tenondé Porã - Morro da Saudade) de jovens Guarani Mbya que vivem em aldeias nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro e intercâmbio de jovens residentes na APA com aldeias nesses Estados. Ao final do projeto os jovens escreveram a Carta Tenonderã (Nosso Futuro Comum).


TENONDERÃ
Nosso Futuro Comum

Baixe aqui o "Projeto Tenonderã"





O TENONDERÃ

A Agenda 21 Global reconhece em seu capítulo 26 os povos indígenas como parceiros na defesa do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável. Apesar deste reconhecimento ainda são figurantes na construção das políticas ambientais. Para alterar esse quadro é necessário que jovens e lideranças discutam sobre as atuais políticas ambientais para que possam ampliar e consolidar a participação neste cenário.

Os povos tupi-guarani, dos quais incluem o povo Guarani Mbya, são grandes conhecedores dos domínios da Floresta Atlântica da região sul do Brasil e responsáveis por grande parte da nominação da fauna, flora e toponímia, hoje reduzida em torno de 7%. Preocupados com a intensa devastação, que tem afetado o modo tradicional de vida, jovens Guarani Mbya da aldeia Tenondé Porã, com apoio do Instituto das Tradições Indígenas, elaboraram o projeto Tenonderã – Encontro de Jovens Guarani Mbya do Estado de São Paulo – para discutir essas questões. 

O Tenonderã aconteceu na aldeia Tenondé Porã, Parelheiros, São Paulo (SP), entre os dias 19 a 21 de maio de 2.009, reunindo cerca de 200 jovens de 14 aldeias para discutirem sobre meio ambiente, cultura, educação, esporte e território. Este evento contou com a participação de especialistas nos temas abordados e lideranças Guarani. 

Ao final da realização do evento, foram indicados pelos participantes a formação de um grupo de 05(cinco) guarani para a realização de intercâmbio em algumas aldeias que enviaram representantes ao encontro. A missão deste grupo era levar as propostas indicadas no Encontro Tenonderã para essas aldeias, com o intuito de recolher a posição dos guarani que não puderam estar presentes no evento, em especial os Xeramoĩ (aciões) e Ñãnderu-Ixá (Caciques) das diversas aldeias do Estado de São Paulo. 

Como fruto dessa discussão foi elaborado a “Carta Tenonderã”, além de um documentário de 20 minutos, a serem enviados às aldeias participantes do encontro, aos órgãos públicos e entidades privadas, das áreas de Meio Ambiente, Educação, Esporte e Saúde, Cultura e Território.


CARTA TENONDERÃ

O Guarani é um grande conhecedor da Ka’aguy ovy que o Juruá, o não-índio, chama de Mata Atlântica. A Ka’aguy ovy é um espaço sagrado, é a morada de Ñanderu, o criador da vida. A destruição da Ka’aguy ovy pelo Juruá vem sendo acompanhada por nós Guarani há muito tempo. O Yvy rupa, como chamamos o território tradicional Guarani, vem sendo loteado e desmatado, gerando o esgotamento dos recursos naturais da Ka’aguy ovy

Hoje, temos acompanhado o Juruá se mobilizando para resolver os problemas ambientais criados por seu modelo de desenvolvimento. Para o Guarani não é novidade o que vem acontecendo. Os Xeramoĩ, que são nossas autoridades espirituais, já nos alertavam há muito tempo, que um dia o Juruá iria perceber as conseqüências que suas atividades vêm trazendo ao meio ambiente. Por causa disso a natureza vem enviando sinais em forma de secas, enchentes, furacões e mudanças climáticas.

O mundo Juruá trata da natureza somente como um bem capital. Nossos antepassados nos ensinaram que os recursos da natureza devem ser usados com sabedoria. Os Juruás que poluem os rios e derrubam as matas não estão sendo sábios porque comprometem o equilíbrio da vida em prejuízo de todos, por isso, somos contrários a maneira como o Juruá vem tratando da natureza. 

Os Xeramoĩ nos dizem que os animais são seres sagrados porque possuem um ser divino dentro de si; que o Homem não pode ser dono da água porque a água pertence a todas as formas de vida; que o Guarani deve respeitar os animais e os rios, porque servem a Criação e fornecem o alimento de nossas famílias. Aprendemos que a chuva que cai na Terra, enviada por Ñanderu, vem para alimentar a vida e limpar as impurezas do mundo. A água é parte importante de nossas cerimônias religiosas como o Yy Ñemongarai, o batismo de nominação Guarani. 

O Guarani respeita a Criação, o Juruá ainda não aprendeu a respeitar, por isso, a natureza está dando sinais de alerta. O Guarani contempla as belezas da natureza, o Juruá não aprendeu a apreciar. Nossos Xeramoĩ sempre têm nos falado, que os problemas ambientais atuais não serão resolvidos pela ciência do Juruá e sim pela consciência da obra de Ñanderu. Para isso, nossos Xondaro, que são os guardiões da Opÿ, a casa de reza, com a sabedoria transmitida por nossos Xeramoĩ, saberão transmitir ao Juruá a forma Guarani de conviver em harmonia com a natureza, trabalhando juntos para a preservação da Ka’aguy ovy em benéfico da vida e de todos os povos.


PROPOSTAS DA "CARTA TENONDERÃ" 

I. Meio ambiente
  1. Participação nas políticas ambientais em nível municipal, estadual e federal, em consenso com o Capitulo 26 da Agenda 21 Global que trata do “Reconhecimento e Fortalecimento do Papel das Populações Indígenas e suas Comunidades”;
  2. Participação em projetos ambientais da Floresta Atlântica focados na geração de renda, de acordo com a Lei 11.428 de 22 de dezembro de 2.006 ou “Lei da Mata Atlântica”, que dispõe sobre a utilização e proteção da vegetação nativa dos domínios da Mata Atlântica;
  3. Participação nos conselhos e discussões que tratam da Lei de Crimes Ambientais (Lei Federal 9.605/98); do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Lei Federal 9985/00) e Código Florestal (Lei Federal 4.771/65);
  4. Criação do Conselho Nacional Guarani para o Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, em consonância com o artigo 225 da Constituição Federal;
  5. Envio de materiais informativos (vídeo, revistas, livros) sobre meio ambiente e sustentabilidade para as organizações Guarani a fim de trazer informações sobre as atuais políticas ambientais em nível municipal, estadual e federal.


II. Educação
  1. Inserção de temas ambientais na escola Guarani, em consonância com a Lei Federal nº 9.795 de 27 de abril de 1.999, que trata da Política Nacional de Educação Ambiental;
  2. Apoio do Ministério da Educação, Secretaria Estadual de Educação e Secretaria Municipal de Educação para a valorização dos escritores Guarani com produção de material didático a serem usados nas escolas Guarani;
  3. Formação e contratação de professores Guarani para atuação nas comunidades junto à questão ambiental;
  4. Participação Guarani no desenvolvimento dos conteúdos da Lei Federal nº 11.645/08, que determina a obrigatoriedade do ensino da história indígena e afro-brasileira nas escolas do ensino público e privado;
  5. Valorização e incentivo a alimentação tradicional.


III. Esporte e saúde
  1. Promoção de jogos, danças e brincadeiras tradicionais com intercâmbio entre as comunidades, conforme estabelecido no inciso IV do artigo 217 da Constituição Federal, que determina ao Estado a “promoção e fomento do esporte de criação nacional e de identidade cultural” e artigo 84 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA);
  2. Cumprimento das diretrizes do tópico 3.3.3 da Agenda 21 Olímpica que trata do “Reconhecimento e a Promoção das Populações Indígenas”;
  3. Criação de agremiações esportivas locais com o propósito de desenvolver a prática do esporte nas comunidades Guarani;
  4. Inserção da educação física no currículo escolar Guarani, ministrada por professores Guarani com a tarefa de promover e registrar os jogos, danças e brincadeiras tradicionais;
  5. Parceria com universidades no desenvolvimento das atividades de ensino, pesquisa extensão universitária, conforme artigo 207 da Constituição Federal em atividades relacionadas à educação física e esporte.

IV. Cultura
  1. Fortalecimento da cultura Guarani com realização de 02 (dois) Tenonderã anuais (São Paulo e outro estado), sempre com a participação dos Xeramoĩ e Xejary e convidados de outros estados pra maior fortalecimento da cultura e troca de experiências (Nhanderekó);
  2. Promoção do evento “Cultura Guarani” nas escolas publicas e privadas, para difusão do conhecimento indígena e sua relação com o meio ambiente, com participação de professores Guarani 11645-08;
  3. Participação no calendário das atividades culturais dos municípios de São Paulo, difundindo a cultura Guarani e sua relação intrínseca com o meio ambiente. Assim como, divulgar a influência indígena na toponímia das cidades, realizando eventos nos lugares com nomes de origem tupi-guarani;
  4. Valorização do artesanato tradicional com plantio de matéria-prima;
  5. Fortalecimento de projetos de turismo sustentável com geração de renda para as comunidades.

V. Território
  1. Demarcação e reconhecimento de todos territórios tradicionais Guarani do Estado de São Paulo, ocupados tradicionalmente e ainda sem providências de definição como Terra Indígena oficial. Conforme exposto no artigo 231 da Constituição Federal que “reconhece aos povos indígenas a sua organização social, costumes, línguas, crenças, tradições e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo a União demarcá-la, proteger e fazer respeitar todos os seus bens”;
  2. Criação de um Parque Indígena Guarani, reunindo e interligando todas as aldeias da Serra do Mar. Este Parque pode ser a Zona de Amortecimento das seguintes áreas protegidas: PARNA Superaguí, PE Ilha do Cardoso, PE Jacupiranga, ESEC Juréia-Itatins, PE Serra do Mar e PARNA Bocaina. Garantido a proteção dos territórios de passagem dos guarani pela Mata Atlântica no estado de São Paulo, interligando o estado do Paraná com o estado do Rio de Janeiro. A criação do Parque Indígena Guarani é embasado no Art. 231 da Constituição Federal, na Lei Federal 6.001/73 (Estatuto do Índio) e Decreto Federal 1 .775/96.
  3. Participação nos conselhos de todas as áreas protegidas em que há presença de Guarani, como o Parque Nacional do Superaguí, Parque Estadual Ilha do Cardoso, Parque Estadual Jacupiranga, Estação Ecológica Juréia-Itatins, Parque Estadual da Serra do Mar e do Parque Nacional da Bocaina. Esta participação é garantida pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação, Lei Federal 9.985/00 e Decreto Federal 4.340/02.
  4. Participação Guarani em projetos de recuperação ambiental de áreas degradadas dos territórios tradicionais, de acordo com o Decreto Federal nº 1.141 de 05 de maio de 1.994, que trata das “Ações de Proteção Ambiental, Saúde e Apoio as Atividades Produtivas para as Comunidades Indígenas”;
  5. Compreender, respeitar e garantir aos índios sua permanência voluntária em seu habitat, proporcionando meios para o seu desenvolvimento e forma de subsistência, além de garantir-lhes condições ideais para manutenção de sua cultura, conforme disposto sobre o estatuto do índio na lei 6.001 de 19 de dezembro de 1973.

PROPOSTAS TRANSVERSAIS
  • Realização de oficinas com juruás (não indígenas) especialistas nas áreas de MEIO AMBIENTE, EDUCAÇÃO, ESPORTE E SAÚDE, CULTURA E TERRITÓRIO. 
  • Apoio dos órgãos públicos e entidades privadas para a realização de encontros semestrais entre os guarani, nos moldes do Encontro Tenonderã, para a discussão dos temas elencados nesta carta como relevantes.



Aldeias Guarani Mbyá que Assinam a Carta Tenonderã”

Terra Indígena
Aldeia
Município/UF
Bairro
Guarani da Barragem
Tenondé Porã
São Paulo/SP
Parelheiros
Jaraguá
Pyaú
Ytu
São Paulo/SP
Jaraguá
Krukutu
Krukutu
São Paulo/SP
Parelheiros
Boa Vista Sertão do Promirin
Jaejaa Porã
Ubatuba/SP
Pró-Mirin
Guarani Araponga
Araponga
Parati/RJ

Guarani do Aguapeú
Aguapeú
Mongaguá/SP

Guarani do Bracuí
Sapukai
Angra dos Reis/RJ
Bracuí
Itaóca
Itaóca
Mongaguá/SP

Parati-Mirin
Itatins
Parati/RJ
Parati-Mirin
Peguaoty
Peguao-Ty
Sete Barras/SP

Ribeirão Silveira
Boracéia
Bertioga/SP
São Sebastião/SP
Salesópolis/SP
Boracéia
Sem providências
Pacuri-Ty
Cananéia/SP
Ilha do Cardoso
Sem providências
Rio Branquinho
Cananéia/SP

Sem providências
Uruy-ty
Miracatu/SP

Sem providências
Pindó-ty
Pariquera-Açú/SP



Tenondé Porã, São Paulo dos Campos de Piratininga, 15 de novembro de 2009.
(Aniversário da Proclamação da República Federativa do Brasil)

Povos do Planalto Central e adjacências nos séculos XVII, XVIII e XIX


Resumo
O artigo localiza povos indígenas que habitavam o Planalto Central e regiões adjacentes nos séculos  XVII, XVIII e XIX. São utilizados como fonte o mapa etnohistórico de Curt Nimuendaju e o etnolinguístico de Čestmír Loukotka. Também é realizado um mapeamento inédito da localização de etnias constantes nos históricos municipais do banco de dados IBGE cidades. São ilustradas, por meio de mapas temporais as sucessivas ocupações indígenas da região em intervalos de 50 em 50 anos, desde o ano de 1700 até o ano de 1900. As conclusões são de que houve, pelo menos, 200 etnias no Planalto Central e adjacências.

Palavras-Chave: Etnogeografia; Cartografia Indígena; Índios; Brasil Central.


Introdução

O primeiro estudo relevante preocupado em mapear a localização dos povos indígenas no Brasil é devido a Carl Martius (1867a). O referido autor agrupou todas as famílias linguísticas indígenas brasileiras que se tinha notícia. Foi a primeira vez que se usou o termo “Gê” para se denominar a família linguística atualmente chamada no Brasil de Jê, sua escolha baseou-se no fato de que grande parte dos povos falantes das línguas dessa família utilizam o termo Gê para se autodenominar, como Apinagez, Crangez (Senna, 1908:14), dentre outros como, Kempokatagê, Piocobjê, Kemkatejé, Kanakatejé, Krengez etc.

A família linguística Jê abrange a maioria dos povos que vivem (e viveram) nos cerrados goianos, mineiros, baianos, maranhenses e piauienses, chamados no presente artigo de Gerais do Planalto Central, na época das invasões luso-brasileiras. Além deles, alguns tupis, kariris, pimenteiras dentre outros, também estiveram presentes de alguma forma (Santos, 2013).


Mapa Etno-linguístico do Planalto Central e adjacências - por volta do ano de 1700 d.C.
Mapa Etno-linguístico do Planalto Central do Brasil e adjacências - por volta do ano de 1700 d.C.

Conclusão

O presente artigo procurou apresentar por meio de mapas e quadros a multietnicidade que existiu no Planalto Central e adjacências. Ao total foram identificados 200 povos na região, destes, 112 já constavam no mapa de Nimuendaju. Dos 88 adicionados, 61 foram identificados no mapa de Loukotka, 22 nos históricos municipais do IBGE, e 5 em ambas fontes. 

Ao total foram 509 locais onde situavam estas etnias, apresentados nos mapas finais, sendo que 208 já constavam no mapa de Nimuendaju. Os 301 novos locais foram extraídos da seguinte forma: 154 no de Loukotka, 139 nos históricos municipais e 8 em cartografia histórica.

Atualmente os poucos povos indígenas do Cerrado estão encurralados nos pequenos fragmentos do bioma que ainda restam. Com o avanço da monocultura sobre essas áreas, certamente eles desaparecerão, e com eles, um conhecimento que vêm de mais de 10.000 anos sobre essa porção do planeta Terra. Para evitar isso é necessário estratégias de resgate e valorização do patrimônio cultural e natural do Cerrado, criando áreas protegidas e fomentando projetos de valorização etno-ambiental, incluindo aí os povos indígenas como fontes de informação e como agentes nessa conservação.

A educação da nossa sociedade é fundamental para se reverter esse processo. É preciso que nossas crianças saibam do passado incidido sob o território de suas atuais moradas. Povos sofreram para que a nossa sociedade nacional pudessem ter e ser o que é hoje. É parte de nossa identidade esse nosso passado. Os erros foram nossos e, portanto, temos que corrigi-los.

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Artigo publicado nos anais do 2.º Simpósio Brasileiro de Cartografia Histórica, organizado pelo Centro de Referência em Cartografia Histórica da Universidade Federal de Minas Gerais; e que ocorreu na cidade de Tiradentes-MG, em 2014.

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MEMÓRIA XAKRIABA: migrações e mudanças alimentares

Rodrigo Martins dos Santos
Santo Caetano Barbosa, Cacique Xakriabá da aldeia Morro Vermelho (Catito)


Resumo
Apresentamos elementos da alimentação da etnia Xakriabá a partir de relatos orais de seus anciões de aldeias, no município de São João das Missões, Minas Gerais. A pesquisa visou responder às seguintes questões: Quais eram os alimentos (ingredientes e pratos) que existiam no passado e que, atualmente, não fazem mais parte da alimentação do  povo Xakriabá? Quais fatores contribuíram para essa transformação alimentar? Utilizamos a  técnica  da história de vida, por meio de registro de entrevistas com questões abertas.  Ferramentas de representação geográfica foram utilizadas na  análise espaço-temporal, no entanto, grande parte dos dados registrados e apresentados são de caráter  etnográfico, demonstrando uma transdisciplinaridade presente no estudo. A conclusão é  de  que muitas espécies nativas, utilizadas na alimentação dos antigos indígenas dessa etnia, desapareceram das roças de seus descendentes, bem como, grande parte dos pratos da culinária tradicional. Os motivos foram: o abandono de áreas tradicionais, devido à pressão do avanço da frente colonial-pecuarista dos luso-brasileiros  sobre o território tradicional Xakriabá, e, mais recentemente, a chegada de alimentos industrializados. 

Palavras-Chave: Alimentação, Oralidade, Indígena, Xakriabá.




Em 2012.
Localização do território Xakriabá em 2012. Org. Rodrigo Santos. 


Abstract
We present elements of the diet of  the Xakriabá, an indigenous ethnic group, according to their elders' oral accounts, collected in villages of  the municipality of São João das Missões, State of Minas Gerais, Brazil. The aim of this research, based on semi-direct interviews and life histories, was to answer the following questions: What kind of food (and ingredients) that they had in the past are no longer part of their diet? Which factors have contributed to diet change?  Tools geographical representation were used to analyze space-time, however, much of the recorded and presented data are ethnography, demonstrating a transdisciplinarity in this study.  As a conclusion, many native food species are no longer cultivated, and most dishes of their traditional cuisine have disappeared. The main reasons for these changes are, first, the pressure caused by  the Luso-Brazilian colonizing front, and then, the arrival of industrialized food.

Keywords: Food, Oral History, Amerindians, Xakriabá.


Résumé
L’article présente l’alimentation des Indiens Xakriabá, à partir de témoignages oraux de membres âgés de cette ethnie  recueillis à São  João das Missões, dans  l’état de Minas Gerais, au Brésil. L’objectif de la recherche, menée à partir d’entretiens semi-directifs et de recueils d’histoires de vie, a été de répondre aux questions suivantes: Quels  aliments (ingrédients et plats) consommés dans le passé ne font plus partie de l’alimentation actuelle des Xakriabá? Quelles sont les causes de ces changements?  Outils de la représentation géographique ont été utilisés pour analyser l'espace-temps, cependant, la plupart des enregistrées et présentées données sont ethnographie, ce qui démontre une transdisciplinarité dans cette étude.  En conclusion, de nombreuses espèces végétales, utilisées dans l'alimentation traditionnelle de ce groupe amérindien, ne sont plus cultivées aujourd’hui, et de nombreux  plats qui leur étaient associés ne sont plus cuisinés. Les causes principales sont, d’une part, l’avancée du front de colonisation luso-brésilien qui, à partir du 17e  siècle, a progressivement repoussé les Indiens en marge des meilleures terres et, d’autre part, plus récemment,  l'arrivée des aliments industrialisés. 

Mots-Clés: Alimentation, Oralité, Amérindiens, Xakriabá.



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Clique aqui para acessar o artigo original, publicado na revista Ateliê Geográfico - ISSN: 1982-1956, v. 6, n.3 (Ed. Especial), out/2012, p. 72-94, editada pelo Instituto de Estudo Sócio-Ambientais, da Universidade Federal de Goiás.

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A Importância do Avatí Kyry (Batismo do Milho Branco) para a Saúde do Povo Guarani (Ñandeva e Kayowá) da Reserva Indígena de Dourados

Rodrigo Martins dos Santos
Arnaldo José Ballarini
Kenide de Souza Morais


RESUMO

O presente texto apresenta elementos do sagrado rito Avati Kyry dos Ñandeva e Kayowá da Reserva Indígena de Dourados, subgrupos da etnia Guarani, que apesar de serem diferenciados do ponto de vista linguístico, assemelham-se política e culturalmente, especialmente na terra indígena estudada. O texto inicia-se com a localização da área de estudo e a metodologia utilizada para a sua realização, que envolve relatos orais de uma anciã (ñandeci) Ñandeva, bem como levantamentos bibliográficos de estudos junto aos Guarani daquela reserva indígena. Em seguida inicia-se um excerto a respeito das origens do milho e sua relação com a saúde das culturas indígenas, logo após é focalizado o seu papel nas culturas Ñandeva e Kayowá. A seguir é relatado como se dá a realização do ritual Avati Kyry. Por fim, uma conclusão que enfatiza a relação dessa prática cultural-religiosa com a saúde e sobrevivência dos índios, apoiados nos conceitos de Langon (2008), que afirma que a resolução dos problemas de saúde, na questão indígena, desloca-se do campo da biomedicina para o campo cultural; e que a saúde não se resume ao bem-estar físico do corpo, mas sim, inclusive, ao bem da alma, que não pode ser diminuído apenas pela ausência de doenças. Assim, elementos culturais e religiosos, como o ritual do milho, integrantes da cosmologia Nãndeva e Kayowá, interagem com fatores físicos no seu sistema saúde/doença e cura. Além deste texto, compõe o presente estudo um curta-metragem disponível na internet através do link: http://youtu.be/HkK6fucZyCk.



Palavras-chaveSaúde indígena, religiosidade, Guarani, milho, batismo.

Anexo ao artigo Avati Kyry
Localização da Reserva Indígena de Dourados.

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Artigo originalmente publicado nos anais do VI Encontro Nacional da Anppas, organizado pela ANPPAS, e que ocorreu na UFPA, em 2012. Clique aqui para acessá-lo diretamente no site do Evento.

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