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MEMÓRIA XAKRIABA: migrações e mudanças alimentares

Rodrigo Martins dos Santos
Santo Caetano Barbosa, Cacique Xakriabá da aldeia Morro Vermelho (Catito)


Resumo
Apresentamos elementos da alimentação da etnia Xakriabá a partir de relatos orais de seus anciões de aldeias, no município de São João das Missões, Minas Gerais. A pesquisa visou responder às seguintes questões: Quais eram os alimentos (ingredientes e pratos) que existiam no passado e que, atualmente, não fazem mais parte da alimentação do  povo Xakriabá? Quais fatores contribuíram para essa transformação alimentar? Utilizamos a  técnica  da história de vida, por meio de registro de entrevistas com questões abertas.  Ferramentas de representação geográfica foram utilizadas na  análise espaço-temporal, no entanto, grande parte dos dados registrados e apresentados são de caráter  etnográfico, demonstrando uma transdisciplinaridade presente no estudo. A conclusão é  de  que muitas espécies nativas, utilizadas na alimentação dos antigos indígenas dessa etnia, desapareceram das roças de seus descendentes, bem como, grande parte dos pratos da culinária tradicional. Os motivos foram: o abandono de áreas tradicionais, devido à pressão do avanço da frente colonial-pecuarista dos luso-brasileiros  sobre o território tradicional Xakriabá, e, mais recentemente, a chegada de alimentos industrializados. 

Palavras-Chave: Alimentação, Oralidade, Indígena, Xakriabá.




Em 2012.
Localização do território Xakriabá em 2012. Org. Rodrigo Santos. 


Abstract
We present elements of the diet of  the Xakriabá, an indigenous ethnic group, according to their elders' oral accounts, collected in villages of  the municipality of São João das Missões, State of Minas Gerais, Brazil. The aim of this research, based on semi-direct interviews and life histories, was to answer the following questions: What kind of food (and ingredients) that they had in the past are no longer part of their diet? Which factors have contributed to diet change?  Tools geographical representation were used to analyze space-time, however, much of the recorded and presented data are ethnography, demonstrating a transdisciplinarity in this study.  As a conclusion, many native food species are no longer cultivated, and most dishes of their traditional cuisine have disappeared. The main reasons for these changes are, first, the pressure caused by  the Luso-Brazilian colonizing front, and then, the arrival of industrialized food.

Keywords: Food, Oral History, Amerindians, Xakriabá.


Résumé
L’article présente l’alimentation des Indiens Xakriabá, à partir de témoignages oraux de membres âgés de cette ethnie  recueillis à São  João das Missões, dans  l’état de Minas Gerais, au Brésil. L’objectif de la recherche, menée à partir d’entretiens semi-directifs et de recueils d’histoires de vie, a été de répondre aux questions suivantes: Quels  aliments (ingrédients et plats) consommés dans le passé ne font plus partie de l’alimentation actuelle des Xakriabá? Quelles sont les causes de ces changements?  Outils de la représentation géographique ont été utilisés pour analyser l'espace-temps, cependant, la plupart des enregistrées et présentées données sont ethnographie, ce qui démontre une transdisciplinarité dans cette étude.  En conclusion, de nombreuses espèces végétales, utilisées dans l'alimentation traditionnelle de ce groupe amérindien, ne sont plus cultivées aujourd’hui, et de nombreux  plats qui leur étaient associés ne sont plus cuisinés. Les causes principales sont, d’une part, l’avancée du front de colonisation luso-brésilien qui, à partir du 17e  siècle, a progressivement repoussé les Indiens en marge des meilleures terres et, d’autre part, plus récemment,  l'arrivée des aliments industrialisés. 

Mots-Clés: Alimentation, Oralité, Amérindiens, Xakriabá.



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Clique aqui para acessar o artigo original, publicado na revista Ateliê Geográfico - ISSN: 1982-1956, v. 6, n.3 (Ed. Especial), out/2012, p. 72-94, editada pelo Instituto de Estudo Sócio-Ambientais, da Universidade Federal de Goiás.

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A Importância do Avatí Kyry (Batismo do Milho Branco) para a Saúde do Povo Guarani (Ñandeva e Kayowá) da Reserva Indígena de Dourados

Rodrigo Martins dos Santos
Arnaldo José Ballarini
Kenide de Souza Morais


RESUMO

O presente texto apresenta elementos do sagrado rito Avati Kyry dos Ñandeva e Kayowá da Reserva Indígena de Dourados, subgrupos da etnia Guarani, que apesar de serem diferenciados do ponto de vista linguístico, assemelham-se política e culturalmente, especialmente na terra indígena estudada. O texto inicia-se com a localização da área de estudo e a metodologia utilizada para a sua realização, que envolve relatos orais de uma anciã (ñandeci) Ñandeva, bem como levantamentos bibliográficos de estudos junto aos Guarani daquela reserva indígena. Em seguida inicia-se um excerto a respeito das origens do milho e sua relação com a saúde das culturas indígenas, logo após é focalizado o seu papel nas culturas Ñandeva e Kayowá. A seguir é relatado como se dá a realização do ritual Avati Kyry. Por fim, uma conclusão que enfatiza a relação dessa prática cultural-religiosa com a saúde e sobrevivência dos índios, apoiados nos conceitos de Langon (2008), que afirma que a resolução dos problemas de saúde, na questão indígena, desloca-se do campo da biomedicina para o campo cultural; e que a saúde não se resume ao bem-estar físico do corpo, mas sim, inclusive, ao bem da alma, que não pode ser diminuído apenas pela ausência de doenças. Assim, elementos culturais e religiosos, como o ritual do milho, integrantes da cosmologia Nãndeva e Kayowá, interagem com fatores físicos no seu sistema saúde/doença e cura. Além deste texto, compõe o presente estudo um curta-metragem disponível na internet através do link: http://youtu.be/HkK6fucZyCk.



Palavras-chaveSaúde indígena, religiosidade, Guarani, milho, batismo.

Anexo ao artigo Avati Kyry
Localização da Reserva Indígena de Dourados.

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Artigo originalmente publicado nos anais do VI Encontro Nacional da Anppas, organizado pela ANPPAS, e que ocorreu na UFPA, em 2012. Clique aqui para acessá-lo diretamente no site do Evento.

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O GÊ DOS GERAIS

Elementos de cartografia para a etno-história do Planalto Central 
Contribuição à antropogeografia do Cerrado

Dissertação apresentada ao programa de pós-graduação em Desenvolvimento Sustentável do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília como parte dos requisitos para a obtenção do grau de Mestre Profissional em Sustentabilidade junto a Povos e Terras Tradicionais, modalidade Povos e Terras Indígenas.

Autor: Rodrigo Martins dos Santos (Geógrafo, especialista em geotecnologias).

Título: O GÊ DOS GERAIS – Elementos de cartografia para a etno-história e etnolinguística do Planalto Central: contribuição à antropogeografia do Cerrado.

Palavras-Chave: Antropogeografia; Etno-história; Cartografia Etnolinguística; Povos Indígenas; Cerrado; Planalto Central do Brasil.


Iconografia do século XVIII representando um Xavante e um Akroá em posição de combate. 
Fonte: Acervo da Biblioteca Pública de Évora, Portugal.


RESUMO EM PORTUGUÊS

Esta dissertação localiza diversos povos indígenas que habitavam o Planalto Central e, portanto, uma parte do Cerrado, antes das invasões Luso-Brasileiras. Será dado maior enfoque a uma porção desse espaço chamado regionalmente de Gerais. Tenho como base o mapa etno-histórico de Curt Nimuendaju que apresenta lacunas na localização de etnias em algumas áreas do centro do país. Pretendo esclarecer um problema que é a insuficiente disposição de informações cartográficas a respeito de quais eram e onde estavam os povos indígenas do Brasil Central, em especial num polígono que abrange o Noroeste e Triângulo Mineiro, todo o Estado de Goiás, extremo nordeste do Mato Grosso e sudoeste do Pará, grande parte do Tocantins, região sul do Maranhão e do Piauí, e oeste da Bahia. A hipótese central é de que há mais informações sobre etnias nessa região do que as apresentadas por Nimuendaju. Para tentar confirmá-la, utilizo diversos produtos cartográficos como o mapa etnolinguístico de Čestmír Loukotka, e diversos mapas históricos disponíveis em arquivos públicos no Brasil e em Portugal. Também realizo um mapeamento inédito da localização de etnias constantes nos históricos municipais do banco de dados IBGE cidades. Dessa fonte compilo, ainda, as datas de colonização e fundação dos povoados e cidades, para ilustrar o avanço Luso-Brasileiro sobre o território indígena, bem como a implantação de aldeamentos pelo Estado e alguns quilombos pelos negros. A metodologia utilizada fundamenta-se na escola da antropogeografia de Ratzel, com apoio da etno-história e assessoria fundamental da cartografia. Após apresentar e localizar a área de estudo: os Gerais do Planalto Central e adjacências, teço uma breve descrição de seu meio físico, abordando os aspectos e origens do Cerrado, ambiente o qual conviveram e convivem os povos da região. Em seguida parto para aspectos etno-históricos, abordando desde a arqueologia à historiografia, no intuito inicial de ilustrar a chegada do ser humano à área e, em seguida, dos invasores Luso-Brasileiros. As análises finais são ricas em material cartográfico tanto históricos como produzidos para esta dissertação. Apresento dados que atestem quais eram os povos que habitavam esse espaço nos séculos XVII, XVIII e XIX, tendo em vista ser o momento de maior movimentação indígena provocada pela colonização na região. As conclusões são de que houve, pelo menos, 199 etnias no Planalto Central e adjacências, 87 além das 112 constantes no mapa de Nimuendaju. Com enfoque para os Gerais, onde aprofundo minhas análises, identifiquei 14 etnias a mais do que as 4 citadas por Nimuendaju, 18 ao total. Apresento algumas características etnográficas desses povos, agrupados por família lingüística, sobre suas origens e língua, com base em bibliografia, monografias, laudos, relatos de viajantes e história oral. Por fim, ilustro por meio de mapas a dinâmica da ocupação indígena, com migrações, diásporas e desaparecimentos de dezenas dessas etnias, tendo por base os fatores históricos e físicos já apresentados.  A contribuição dessa pesquisa está no fortalecimento da territorialidade indígena na história do país, em especial do Brasil Central. Os resultados poderão ilustrar livros didáticos e conteúdos escolares de história e geografia, conforme estabelece a Lei 11.645/08. Também poderá colaborar em estudos sobre a etnicidade de populações rurais brasileiras. Nos Gerais há pelos menos duas comunidades indígenas emergentes, os Xakriabá e os Aricobé, é possível que hajam ainda outras comunidades remanescentes de uma das 18 etnias Geraizeiras, em especial os Akroá, Guegué e Cayapó.


ARQUIVOS COM A DISSERTAÇÃO

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A versão disponível acima foi revisada pelo autor em setembro de 2020. Para ter acesso a versão original visite o Banco Digital de Teses e Dissertações da Biblioteca Central da Universidade de Brasília, ou clique no link a seguir: http://repositorio.unb.br/handle/10482/13288.



BANCA EXAMINADORA


Banca-examinadora da dissertação. Da esquerda para a direita: Henyo T. Barreto Filho; Francisca N. P. de Ângelo; Ludivine E. C. Pereira; Rodrigo M. dos Santos; Mônica C. R. Nogueira; e Rafael S. A. dos Anjos.


Data da Defesa Pública: 08 Fev. 2013


Orientadora (Presidente da banca-examinadora): Ludivine Eloy Costa Pereira (Agrônoma, mestre em geografia e desenvolvimento, doutora em estudos latinoamericanos e pós-doutora em geografia. Pesquisadora do centre national de la recherche scientifique). Professora-colaboradora do CDS-UnB.

Coorientadora: Mônica Celeida Rabelo Nogueira (Antropóloga, mestre em desenvolvimento sustentável, doutora em antropologia). Professora da FUP-UnB. Professora-colaboradora do CDS-UnB.

Examinador-interno: Henyo Trindade Barretto Filho (Cientista Social, mestre e doutor em antropologia. Diretor acadêmico do Instituto Internacional de Educação do Brasil - IEB). Professor-colaborador do CDS-UnB.

Examinador-externo: Rafael Sanzio Araújo dos Anjos (Geógrafo, especialista em Sensoriamento remoto, mestre em planejamento urbano, doutor em engenharia de transportes, pós-doutor em cartografia étnica). Professor do Departamento de Geografia (GEA) da UnB.

Examinadora-indígena: Francisca Navantino Pinto de Angelo - Chiquinha Paresí (Historiadora, mestre em educação). Indígena da etnia Paresí. Integrante da Comissão Nacional dos Povos Indígenas - CNPI - da FUNAI.

Examinadora-Suplente: Cristiane de Assis Portela (Historiadora, mestre e doutora em história. Coordenadora de pesquisa do Arquivo Público do Distrito Federal - ARPDF). Professora-colaboradora do CDS-UnB.


ÁUDIO-VISUAL DA DEFESA PÚBLICA

Defesa Pública da dissertação "O Gê dos Gerais" por Rodrigo M. dos Santos. Filmado por Joana Arari Bindi Botton.


Clique aqui para baixar o vídeo da defesa pública de Rodrigo Martins dos Santos (formato MP4).

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Clique aqui para baixar o áudio da defesa de Rodrigo Santos (formato MP3).

Clique aqui para baixar a apresentação da defesa (formato .ppt - Power Point).

Clique aqui para ouvir a avaliação feita pelo professor Rafael Sanzio A. dos Anjos (formato MP3).

Clique aqui para ouvir a avaliação feita pelo professor Henyo Trindade Barretto Filho (MP3).

Clique aqui para ouvir a avaliação feita pela indígena paresí Francisca N. Pinto de Ângelo (MP3).

Clique aqui para ouvir a avaliação feita pela orientadora Ludivine Eloy Costa Pereira (MP3).

Clique aqui para ouvir a resposta de Rodrigo Santos sobre os questionamentos da banca (MP3).

Clique aqui para ouvir a menção proferida pela presidente da banca-examinadora (MP3).


ABSTRACT IN ENGLISH

Title: THE "GÊ" OF "GERAIS" - Elements of cartography for the ethnohistory and ethnolinguistic of the Brazilian Central Highlands:  Contribution to anthropogeography of the savanna.

Keywords: anthropogeography; ethnohistory; ethnolinguistic cartography; indigenous peoples; savanas, Central Plateau of Brazil.

Abstract: This dissertation finds many indigenous peoples who inhabited the Brazilian Central Plateau and therefore a part of the Cerrado, before the invasions Luso-Brazilian. More focus will be given to a portion of this space called regionally Gerais. I based Curt Nimuendaju's ethnohistorical map that has gaps in locating ethnicities in some areas of the center of the country. I want to clarify that a problem is the insufficient provision of cartographic information about what they were and where they were the indigenous peoples of Central Brazil, especially in a polygon that covers the Northwest and West of Minas Gerais State, throughout the State of Goiás, Mato Grosso extreme northeastern and southwest of Pará, much of the Tocantins State, south of Maranhao and Piaui, and western Bahia. The central hypothesis is that there is more information on ethnic groups in this region than those presented by Nimuendaju. To try to confirm it, I used several cartographic products as Čestmír Loukotka's etholinguistic map, and historical maps available in several public archives in Brazil and Portugal. Also realize unprecedented mapping of the location of ethnic groups listed in the historical city of the database IBGE cities. Compile this source also dates of colonization and founding of towns and cities, to illustrate the progress on the Luso-Brazilian indigenous territory, as well as the deployment of settlements by the state and some quilombos by blacks. The methodology is based on the anthropogeography, school of Ratzel, with support from ethnohistory and advisory fundamental cartography. After presenting and locate the study area: the Gerais of the Central Plateau and vicinity, weave a brief description of their physical, addressing aspects and origins of the Brazilian Savanna, environment which lived and living the native people of this region. Then present ethno-historical aspects, approaching from archeology to history, in order to illustrate the initial arrival of humans to the area and then the invaders Luso-Brazilian. The final analyzes are rich in both historical and cartographic material produced for this dissertation. Present data that demonstrates what were the people who inhabited this area in the seventeenth, eighteenth and nineteenth centuries, in order to be the moment of greatest indigenous movement caused by colonization in the region. The conclusions are that there were at least 199 ethnicities in the Central Plateau and adjacent areas, besides 87 of the 112 listed on the map of Nimuendaju. Focusing for Gerais, where deepen my analysis, I identified 14 ethnic groups more than the 4 mentioned by Nimuendaju, 18 to the total. Present some ethnographic characteristics of these peoples, grouped by language family, about their origins and language, based on literature, monographs, reports, travelers' accounts and oral history. Finally, by means of maps illustrate the dynamics of indigenous occupation, with migrations, diasporas and disappearances of dozens of these ethnic groups, based on the physical and historical factors already presented. The contribution of this research is to strengthen the indigenous territoriality in the history of the country, especially in Central Brazil. The results may illustrate textbooks and educational content of history and geography, according to Law 11.645/08. It can also collaborate on studies on the ethnicity of rural Brazil. In general there are at least two indigenous communities emerging, the Xakriabá and the Aricobé, it is possible that there are other communities remnants of one of the 18 ethnic groups Geraizeiros, especially Akroá, Guegue and Cayapó.


RESUMEN EN CASTELLANO (ESPAÑOL)

Título: EL "GÊ" DE "GERAIS" - Elementos de cartografía para la etnohistoria y la etnolingüística de la Meseta Central de Brazil: contribución a antropogeografía de la sabana.

Palabras-clave: antropogeografía; etno-historia; cartografia etnolingüística; pueblos indígenas; sabanas; Meseta Central de Brasil.

Resumen: Esta tesis ubica muchos pueblos indígenas que habitaron la Meseta Central de Brazil y por lo tanto una parte de la sabana, antes de la invasión luso-brasileña. Más atención se le dará a una parte de este espacio llamado a nível regional de Gerais. Yo utilizo como base el mapa etno-historico de Curt Nimuendaju que presenta un "vacío" etnográfico en esta zona del centro del país. Quiero aclarar que un problema es la insuficiencia de la información cartográfica sobre lo que eran y dónde estaban los pueblos indígenas del Brasil Central, sobre todo en un polígono que abarca el noroeste y oeste del Estado de Minas Gerais, en todo el Estado de Goiás, extremo noreste de Mato Grosso y sudoeste de Pará, gran parte del Estado de Tocantins, la región sur de Maranhão y Piauí, y Bahía occidental. La hipótesis central es que hay más información sobre los grupos étnicos de esta región que los presentados por Nimuendaju. Para tratar de confirmar, utilizo varios productos cartográficos como el mapa etnolingüístico del Čestmír Loukotka y mapas históricos disponibles en varios archivos públicos en Brasil y Portugal. También se dan cuenta de asignación sin precedentes de la localización de los grupos étnicos enumerados en el histórico de la base de datos de IBGE ciudades. También recopilo em esta fuente las datas de la colonización y fundación de pueblos y ciudades, para ilustrar el progreso Luso-Brasileño en el territorio indígena, así como el despliegue de los asentamientos por parte del Estado y algunos quilombos de los negros. La metodología se basa en antropogeografía de la escuela de Ratzel, con el apoyo fundamental de la etnohistoria y asesoramiento de la cartografía. Despoes de presentar y ubicar la zona de estudio: el “Gerais” de la Meseta Central y alrededores, tejo una breve descripción de sus aspectos físicos, abordando las orígenes del la Sabana em Sudamerica, medio ambiente donde vivió (y viven) las personas de essa región. A continuación, presenta aspectos etno-históricos, acercándose desde la arqueología a la historia, con el fin de ilustrar la primera llegada del hombre a la zona y luego los invasores luso-brasileños. La final las analizis son ricas en materia histórica y cartográfica producida para esta tesis. Los datos actuales demuestran quien eran las personas que habitaban esta zona en los siglos XVII, XVIII y XIX, con el fin de ser el momento de mayor movimiento indígena causada por la colonización de la región. Las conclusiones son que hubo por lo menos 199 grupos étnicos en la meseta central y las zonas adyacentes, además de 87 de los 112 que figuran en el mapa de Nimuendaju. Enfoque para los Gerais, donde profundizo mi análisis, identifiqué 14 grupos étnicos más que el 4 mencionado por Nimuendaju, 18 al total. Presento algunas características etnográficas de estos pueblos, agrupados por familias lingüísticas, sobre sus orígenes y su lenguaje, basado en la literatura, monografías, informes, relatos de viajeros y la historia oral. Por último, por medio de mapas ilustro la dinámica de ocupación indígena, con las migraciones, las diásporas y las desapariciones de decenas de estos grupos étnicos, basados en los factores físicos e históricos ya presentados. La contribución de este trabajo consiste en fortalecer la territorialidad indígena en la historia del país, especialmente en el centro de Brasil. Los resultados pueden ilustrar libros de texto y el contenido pedagógico de la historia y de la geografía, de acuerdo con la Ley 11.645/08. También pueden colaborar en los estudios sobre el origen étnico de las zonas rurales de Brasil. En general, hay al menos dos comunidades indígenas emergentes, los Aricobé y los Xakriabá, es posible que hay restos de otras comunidades de uno de los 18 grupos étnicos Geraizeiros, especialmente Akroá, Cayapó y Guegue.


RÉSUMÉ EN FRANÇAIS

Titre: LE "GÊ" DE "GERAIS" - Eléments de cartographie pour l'ethno-histoire et ethnolinguistique de le Plateau Central Brésilien: contribution à anthropogéographie la savane.

Mots-clés: anthropogéographie; ethno-histoire; cartographie ethnolinguistique; peuples amérindiens; savane; Plateau Central du Brésil.

RésuméCe mémoire propose de localiser les peuples autochtones qui ont habité le Plateau Central brésilien avant les invasions luso-brésiliennes. Je me suis focalisé sur une partie de cet espace appellé le "Gerais". J´ai utilisé comme la toile fond de la carte ethno-historique de Curt Nimuendaju, qui présente des lacunes concernant l´existence et la localisation des ethnies dans certaines régions du centre du pays. J´ai mis en évidence le problème du manque d'information cartographique au sujet des peuples amérindiens du Brésil central, en particulier dans un polygone qui couvre le Nord-Ouest et l´Ouest de l´état de Minas Gerais, l´ensemble de l´état de Goiás, l´extrême nord-est du Mato Grosso, le sud-ouest du Pará, une grande partie du Tocantins, le sud Maranhão et Piauí et le sud-ouest de Bahia. L'hypothèse centrale est qu'il existe plus d'informations sur les groupes ethniques de cette région que celle présentées par Nimuendaju. Pour tenter de la confirmer, j'ai utilisé plusieurs documents cartographique, comme la carte ethnolinguistique de Čestmír Loukotka, et diverses cartes historiques disponibles dans les archives publiques au Brésil et au Portugal. J´ai utilisé également l´historique des communes figurant dans la base de données de l´IBGE pour cartographier la localisationdes groupes ethniques dans la région d´étude. J´ai compilé ces données avec les dates de colonisation des lieux et de fondation des villes et villages, afin d'illustrer l´avancée des colons luso-brésiliens sur les territoires amérindiens, ainsi que le déploiement des quilombos (villages crées par les esclaves fugitifs). La méthodologie utilisée est basée sur l´anthropogéographie de l'école de Ratzel, avec l'appui de l´ethnohistoire et de la la cartographie. Après la présentation de la zone d'étude (le Gerais du Plateau Central et ses environs), je tisse une brève description de ses aspects physiques et des origines du Cerrado, de façon à décrire l'environnement dans lequel les groupes améridniens ont vécu et vivent encore aujourd´hui. Ensuite, j´aborde les aspects ethno-historiques, en décrivant l'arrivée des premiers êtres humains dans la région et des début de la colonisation, grâce aux travaux d´archéologie et d'histoire. Ensuite, grâce à de nombreuses cartes, je présente les données qui démontrent qui sont les groupes qui ont habité cette région au XVIIe, XVIIIe et XIXe siècles, c´est -à-dire l´époque à laquelle  la colonisation a causé le plus de déplacements dans la région. Les conclusions sont qu'il y avait au moins 199 ethnies dans le Plateau Central et ses zones adjacentes, c´est à dire 87 de plus que les 112 répertoriés sur la carte de Nimuendaju. Dans la région particulière du Gerais, où j´ai approfondi mes recherches, j'ai identifié 14 groupes ethniques de plus que les 4 mentionné par Nimuendaju, soit 18 au total. Je présente certaines caractéristiques ethnographiques de ces groupes, regroupés par famille de langues et par leurs origines, basée sur la littérature, monographies, rapports, récits de voyageurs et de l'histoire orale. Enfin, je présente des cartes qui illustrent la dynamique de l'occupation amérindienne, marquée par des  migrations, des diasporas et la disparitions de dizaines de groupes ethniques. Cette recherche contribue donc à affirmer l´importance des territorialités amériendiennes dansl'histoire du pays, en particulier du centre du Brésil. Les résultats pourront illustrer des manuels scolaires d'histoire et de la géographie, comme le préconise la loi 11.645/08. Ils pourront également collaborer aux études portant sur l'origine ethnique des populations rurales du Brésil. Le Gerais compte en effet deux communautés amérindennes émergentes, les Xakriabá et Aricobé, et il est possible qu'il existe d'autres communautés descendantes de l'un des 18 groupes ethniques identifiées, en particulier les Akroá, les Guegue et les Cayapó.

Caso Tupinambá de Olivença

A questão que o povo Tupinambá de Olivença (Ilhéus-BA) vêm sofrendo nos últimos anos com a usurpação de suas terras e violência sobre suas lideranças, foi tema de uma apresentação conjunta, onde o cacique Tupinambá Alício Francisco¹, e o professor Carlos Santos², da Universidade Estadual Santa Cruz, de Ilhéus, falaram a respeito.

O professor Carlos iniciou sua exposição apresentando um pensamento de E.P. Thompson sobre leitura inversa: “ver na visão do branco, viajante, o que eles estavam escondendo”. Isto porque a história oficial tradicionalmente sempre foi escrita pelos colonizadores, não há referências que enfoquem os indígenas, suas ações e pensamentos. Assim, é necessário ler nos antigos textos o que eles estavam escondendo. Tentar decifrar isto nos textos.

Ele disse que o reconhecimento étnico dos Tupinambá de Olivença é de 2002. E reclama que 

no dia-a-dia todos eles são pejorativamente taxados de índios pelos não-índios, mas quando entra a questão fundiária, não são mais considerados como tal.

O professor questiona o uso das fontes oficiais, dos documentos elaborados por representantes do Estado colonizador, como os arquivados na Torre do Tombo em Lisboa:

Quem me garante que essa documentação é verdadeira? Que não foi forjada para justificar a colonização? É diferente da fonte oral? Não foi feita por apenas uma das partes? Seria imparcial? (...) Entre a história e a memória eu fico com esta. A memória é a história.

Dessa forma ele defende que a oralidade é tão ou mais válida quanto a documentada, pois é uma outra versão, de uma das partes. Ele nega conceder “valor a uma documentação do período colonial ou posteriores que negam a existência dos Tupinambá em Olivença”, pois acredita que este povo pode até ter sido massacrado, mas nunca exterminado.

Ele diz que “toda a classificação é um exercício de poder, de acordo com seus interesses” citando Michael Foucault. A começar pelo termo aldeia, que é uma palavra portuguesa, usada por eles para classificarem os modos rústicos de vida de sua população camponesa. Logo transplantaram o mesmo termo para o outro lado do oceano, mas a conotação deveria ser outra.

O Cacique Alício, liderança do povo Tupinambá de Olivença, disse que não há porque generalizar os indígenas a partir de estereótipos ou mitos de determinado povo. Ele acredita que 

da mesma forma que tem o índio preguiçoso e o índio trabalhador, tem o negro e o branco preguiçoso e trabalhador.

Ao se tratar da etnia Tupinambá, o professor e historiador Carlos disse que os atuais são uma “farofa” de etnias que sobreviveram a diversos massacres:

Nessa farofa o tempero mais forte foi o Tupinambá. Não que não tenham outros temperos, mas esse se destacou hoje. (...) No futuro, após a terra estar demarcada, virá movimentos internos de auto-identificação.

Nesta mesa tive uma surpresa, o professor Carlos quando chegou à sala e tomou um lugar junto aos alunos, pouco se diferenciava dos outros indígenas estudantes. Aliás, ele afirma ser descendente dos Pankararu de Pernambuco. Mas o conhecimento que esse jovem doutor nos proporcionou, foi magnífico.

Um dos aprendizados que tive reforçado foi o uso da memória, da história oral para contar a versão dos excluídos da história oficial. Este caminho eu já estou utilizando em minha pesquisa, que trata de mostrar os locais por onde se estendiam os territórios dos povos do Planalto Central.

Também me surpreendeu a própria história dos Tupinambá de Olivença, um povo que na verdade são vários, e que se reuniram sob a denominação de uma das etnias formadoras, para garantir a sua identidade indígena. Isto também ocorre com diversos outros grupos ressurgentes, como os Xakriabá, os Pataxó, e de certa forma até entre os Fulni-ô, pois na verdade são refugiados de diversas origens étnicas, que para sobreviver do genocídio luso-brasileiro buscaram uma aliança inter-étnica ou até mesmo a miscigenação entre tribos.

Esta mesa também veio a reforçar a idéia de que muitos conflitos fundiários que sofrem diversos povos indígenas no Brasil são semelhantes, estão vinculados a enganações e ocultações de informações por meio de órgãos oficiais na história do país, bem como o pensamento de integração e eliminação do componente indígena da sociedade brasileira.

A minha perspectiva é de que oportunidades como a oferecida pelo nosso curso de mestrado, com cotas para indígenas poderem receber titulação acadêmica, tragam mais “Carlos” no futuro. E que eles possam gerar outros, e outros... Novos pensadores indígenas no Brasil e no mundo.

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Graves violações aos direitos humanos de povos indígenas, tema de aula na disciplina "Questões Indigenistas na Contemporaneidade", 1º semestre de 2012. Mestrado Profissional em Sustentabilidade junto a povos e terras indígenas, Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS)Universidade de Brasília (UnB).
¹ Alício Francisco, cacique da etnia Tupinambá de Olivença, Ilhéus, Bahia.
² Carlos José Santos, historiador, mestre e doutor em arquitetura e planejamento, professor da Universidade Estadual Santa Cruz (UESC), Ilhéus, Bahia.

Indigenismo e Sustentabilidade


A abertura do curso de ‘Mestrado Profissional em Sustentabilidade junto a povos e terras indígenas’ oferecido pela Universidade de Brasília (UnB) através de seu Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS), foi uma pequena amostra do que será este curso, uma proposta inovadora na pós-graduação brasileira. Que iniciou com 14 mestrandos indígenas (13 com cotas) e 12 não-indígenas.

Cerimônias religiosas, visões de mundo culturalmente diferenciadas, aulas densas de conteúdo conceitual, fizeram parte dessa primeira experiência. Estas atividades foram proferidas ou celebradas por personalidades das mais diversas, como acadêmicos experimentados, profissionais experientes, lideranças históricas e sacerdotes.

Os representantes das instituições organizadoras e parceiras externaram o orgulho e expectativa na realização deste curso, que deverá formar pessoal qualificado para atuar conjuntamente com as questões indígena e ambiental, no seio da sociedade, seja ela indígena ou não indígena, pois haverá tanto formandos como formadores de ambas as origens étnicas.

As exposições e posicionamentos foram bem diversos, alguns, mais acadêmicos, olhavam a questão como um objeto de estudo científico, onde a maior necessidade é o seu entendimento; outros mais técnicos, viam como um problema de Estado, solvível através de regulamentações legais e reforma burocrática; havia ainda visões mais pragmáticas, cujos objetivos eram a execução de projetos específicos. Mas um posicionamento era unânime, que a questão indígena e o indigenismo é real e necessita de atenção, necessita de ser pensado, incorporado e praticado. Além disto, ficou claro em todos os posicionamentos e pronunciações que a questão ambiental está arraigada na indígena, é impossível indissociar uma coisa da outra. São complementares e assessórias.

A apresentação cultural mítica do povo Bakairi (Auití) ‘A Árvore da Vida’ e a ‘Cerimônia Espiritual Imemorial Yanomami’ possibilitaram uma pertinente saída dos modelos acadêmicos tradicionais de exposição-debate, comumente presente nos eventos de abertura de cursos de pós-graduação. Este contato com a mística indígena religou os participantes do curso ao inexplicável, a Deus. Inclusive os estudantes e professores passaram a realizar certas ‘cerimônias’ para descontração e contato com o sagrado, através da música, da dança e da meditação, utilizando simbolismos e citações que iam do indígena, caboclo, afro, até elementos greco-romanos, cristãos e orientais. Manifestando, portanto, o verdadeiro sentido da holística, que vai além da transdisciplinaridade acadêmica, mas envolve todas as ciências, filosofias, artes e crenças.

A mesa de abertura ‘A Alma do Mundo’ formada pelo educador e antropólogo Carlos Brandão e pelo escritor yanomami Davi Kopenawa proporcionou aos ouvintes uma reflexão sobre os propósitos das escolhas. O papel das pessoas que lá estavam. Por que estavam lá? A reflexão de que um outro mundo pode ser possível, com respeito à diversidade natural e cultural do planeta. A importância das diversas formas de conhecimento.

Ailton Krenak, histórica liderança indígena brasileira, explanou sobre ‘Gestão de Territórios Indígenas, Governança Local e Regional’ onde defendeu o “direito à autonomia e soberania dos povos tribais sobre o seu território tradicional”. Ele defendeu, dentre outros pontos, que os índios possam usar instrumentos tecnológicos e geográficos, interagindo de igual para igual com o público externo. Também criticou o fato de que há municípios cuja população indígena é maioria, no entanto, não participam da vida política da cidade, e propôs: “por que as Terras Indígenas não recebem status igualitários como unidade de planejamento nacional, ou Unidade da Federação, como os municípios?”

O tema ‘Indigenismo e Territorialidade’ foi o tema central da exposição do antropólogo João Pacheco de Oliveira, interessado em “passar a história a limpo” sobre o papel do índio na formação do Brasil. Disse que a criação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) serviu para pacificar os ataques entre indígenas e não indígenas, protegendo ambos, mas também serviu para a expansão econômica sobre as terras tradicionais dos índios. Também colocou que a criação de terras indígenas sempre foi um processo doloroso, muitas lideranças, intelectuais ímpares e únicos, são assassinados, destruindo a memória e conhecimento de um povo, registrar essa luta fortalecerá a defesa e valorização desse patrimônio.
Os antopólogos Stephen Baines, Cristhian Teófilo e Tonico Guarani abordaram o tema ‘Antropólogos e Indigenismo no Brasil’, onde, dentre outros pontos, criticaram o fato de que a antropologia, ciência da observação, registro e análise das diferentes formas de ver o mundo, precisa aprender a ouvir novamente, “estão falando mais do que ouvindo e para si mesmo”, para seu grupo, sem externar para o público geral suas idéias.

O sociólogo Donald Sawyer abordou o tema ‘Desenvolvimento Sustentável e Territórios Indígenas’ levantando diversos questionamentos para reflexão, como o fato de que para ruralistas laudos antropológicos que apontam a ocorrência de índios em suas fazendas estão distorcendo a realidade, mas não teria o indígena ocupado todo o território brasileiro? O Brasil defende a responsabilidade histórica dos países que emitiram gases de efeito estufa, mas não existe uma responsabilidade histórica do Brasil perante índios e negros? Uso de plantas medicinais a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) proíbe. Interesse das indústrias farmacêuticas?  Poderia o indígena levantar a bandeira do uso de plantas medicinais? Seria interessante para políticas ambientais? Como resolver a extração de madeira e minérios em terras indígenas?

‘Diálogos interculturais: Sustentabilidade e Espiritualidade’ foi proferida por Marcos Terena, histórica liderança indígena, ele disse que para muitos povos indígenas o mais velho é o mais respeitado, pois é o que possui mais conhecimento e mais habilidade. O índio tradicionalmente não pede nada a Deus, apenas agradece por estar na Terra, com a Natureza bela, o Sol, os animais, etc. Seus valores primordiais são: escutar, perceber, falar e transmitir. Povos indígenas são considerados os mais pobres do mundo. Por quê? Não têm dinheiro? O advogado Ulisses Riedel, que também participou como expositor, disse que na civilização não-indígena as pessoas se sentem sem tempo, trabalhando desesperadamente, alimentando-se mal, assistindo tragédias e traições nas novelas, vendo notícias de violência nos noticiários. Que civilização é essa? Destroem-se florestas para produzir “alimento”! Que alimento? Morticínio do boi? Soja para engorda de animais, e mais morticínio? É importante conhecer o Universo, religar-se com a espiritualidade.

Outra figura emblemática do movimento indígena brasileiro é Alvaro Tukano, que explanou sobre ‘Educação e alteridade’. Doéthiro, seu verdadeiro nome, apresenta diversos aspectos que tornam as culturas indígenas autênticas. Por exemplo, a importância da amizade e da família. Critica a atuação das missões religiosas que enfraquecem a religião e as tradições indígenas. Lembra, ainda, a militância política dos índios espelhados no deputado constituinte xavante Mário Juruna, que lutaram por maior espaço nas instituições brasileiras, inclusive nas universidades, onde o presente curso é uma das conquistas dessa trajetória.

O tema ‘Gestão de Conflitos Interétnicos’ foi abordado pelo professor Euclides Macuxi e pelo sociólogo Elimar Nascimento. Eles disseram que há conflito na diferença de valores, que pode evoluir para um acordo pacífico, ou para uma disputa (guerra, debate, concurso). Cada ator possui os seus interesses (econômico, ambiental, social, religioso, étnico) e recursos (conhecimento, dinheiro, aliados, ferramentas). O processo civilizatório é a expansão da regulação dos conflitos pacificamente, o contrário da barbárie que é a ausência da resolução de conflitos de uma forma pacífica.

‘Natureza, Cultura e Inconsciente Ecológico’ foi explanado pelo sacerdote auití Otyl Bakairi, pelo geólogo Othon Leonardos, e pelo psicólogo Marco Aurélio Bilibio, um mesa arraigada de espiritualidade. Eles defenderam que a natureza está na psique de todos, mas que a civilização urbano-industrial, por se distanciar da religiosidade, desconectou-se, diferentemente das culturas indígenas que mantém este vinculo através de seus mitos. A consciência ecológica é um inconsciente de ligação do ser com o ambiente. O Ecocídio consiste em matar-se a partir da destruição do meio onde se vive. O ser humano, assim como as plantas, também tem raízes, que é sua história, sua cultura. Às vezes é preciso resgatar estas raízes para se ter base, buscando enxergar suas virtudes e patologias, e depois avançar, para atingir a transcendência, a evolução, a iluminação.

O historiador José Pádua, palestrou sobre a temática ‘História Ambiental’, e abordou a interface histórica do meio ambiente, a observação da transformação social e da natureza no tempo, “pois as coisas não são, estão”. Ele expôs que quando o ser humano toma consciência de si, passa a pensar no seu passado-presente-futuro (memória-momento-planejamento), sempre a partir de questões que o incomoda. A História seria uma sobreposição de tempos agindo sobre determinado espaço, simultaneamente. Conhecê-la seria como destrinchar as várias Geografias que vão se sobrepondo. O conhecimento histórico pode ajudar a entender problemas ambientais do presente, por exemplo, para se estudar soluções na Amazônia, é imprescindível se conhecer a História Ambiental da Mata Atlântica.

Uma conversa sobre ‘Memória, Patrimônio e Tradição’ foi estabelecida entre a cientista social Sandra Lima, a educadora Vera Catalão, a antropóloga Mônica Nogueira e a historiadora Joana Euda Munduruku, onde, em resumo, foi apresentada a importância da memória e da tradição no sentido de “caminhar para o futuro nas trilhas dos antepassados” e o fato de que patrimônio imaterial é intangível, mas guardado na memória, transmitido principalmente através da ‘oralidade’ assim são as manifestações culturais, danças, rituais. Para se projetar o futuro é necessário compreender sua origem, por isto a importância da memória. A articulação política dos povos tradicionais também foi abordada, como uma alternativa para o estabelecimento de estratégias para conservação e uso de recursos naturais e de suas relações territoriais, dessa forma é possível o reconhecimento do patrimônio cultural desses povos. No entanto, todo o movimento é arraigado de escolhas, e cada escolha é uma renúncia, para a transformação, assim, sempre haverá perdas tal qual ganhos. Por outro lado, o aumento da participação dos diversos atores envolvidos contribui para que as escolhas sejam mais sábias, pois o sentido da vida para uma pessoa constitui os seus valores, “quando o sentido da vida é ficar rico, a pessoa passará a vida buscando dinheiro, seu principal valor será o dinheiro”.

Os indigenistas Fernado Schiavini e José Meireles, em conjunto com o lingüista xokleng Namblá Gakran, abordaram o tema ‘Olhares sobre o indigenismo’. Nesta mesa foi colocado que se por um lado as sociedades não-indígenas, desenvolvimentistas, vêem a natureza como obstáculo, a terra como privada e o lucro como objetivo; as sociedades tribais, tradicionalistas, vêem a natureza como celeiro, a terra como coletiva, e a produção para ser dividida. As primeiras técnicas de atração pacífica de índios isolados foram desenvolvidas por Rondon, que conseqüentemente possibilitou o avanço de projetos desenvolvimentistas. Esta experiência mostrou que toda a situação de aproximação é malograda, deteriora a cultura e a saúde do povo isolado. Assim, atualmente o que se faz é reservar uma grande área em volta do território núcleo do povo isolado, e monitora-os a distância, evitando o contato. Quando o há, deve ser com paciência, lealdade, entrega e conhecimento. No entanto, essa estratégia de proteção não tem êxito sem um trabalho com o entorno, com ações de saúde, subsistência, regularização fundiária, etc. Uma restruturação no indigenismo de Estado requer a formação de profissionais com sensibilidade indígena nas diversas esferas e instituições, não apenas na FUNAI (Fundação Nacional do Índio).

‘Indigenismo e suas múltiplas dimensões’ foi o tema exposto pela antropóloga Carmem Junqueira. Ela afirma que avareza e falta de solidariedade é pouco comum ou inexistente nas comunidades indígenas, o que há é uma troca comunitária: quem recebe acha que recebeu muito e passa a retribuir também. É uma reciprocidade generalizada, pois quem dá algum presente o faz sem a intenção de receber algo em troca. O trabalho é familiar, onde o velho garante a permanência da continuidade com sua memória, o adulto trabalha e sustenta os pré-produtores (crianças) e os pós-produtores (idosos), e as crianças têm liberdade e aprendizado. Disse que é possível atingir a fartura de duas formas: produzindo muito, ou desejando pouco. E que a pobreza só vai aparecer nas sociedades fisgadas pelo consumo, carentes de saúde e educação, mas não nas comunidades subsistentes.

Por fim, os antropólogos Gustavo Ribeiro e Enyo Barreto tecem comentário a respeito do ‘Indigenismo em contextos latino-americanos’ e lembram que a Constituição Equatoriana remete em seu preâmbulo à Pacha Mamma e a Deus, reconhecendo a sabedoria e ancestralidade de todos e a igualdade de gênero. Em 1971, um encontro latino-americano em Barbados trouxe elementos para a emancipação dos grupos indígenas. Em contrapartida, no Brasil, em 1973, o Estatuto do Índio é publicado, e ainda com o conceito de tutela para a ‘integração’ do indígena à cultura nacional. Ou seja, o mesmo pensamento positivista rondoniano, já esgotado nas ações, continua na legislação. O Diretório Pombalino foi a primeira vez que houve uma política de Estado na América em que a questão indígena foi tratada pacificamente, superada apenas pela de Rondon, cujo posicionamento, na época, era contrastado com o de Von Ihering, diretor do Museu Paulista, que defendia a Imigração Européia e a eliminação do índio.

Nestes termos, é possível comprovar a diversidade de idéias e posicionamentos, que apesar de ter sido colocado aqui no presente texto de uma forma bem resumida, não representando, portanto, o denso e diverso universo de conteúdo (conceitos e propostas) presenciado nas atividades. As idéias aqui apresentadas proporcionaram reflexões sobre a forma de se ver o índio e a questão indígena, no sentido de contribuir para a melhoria de sua qualidade de vida, com respeito e dignidade na sociedade brasileira, e que conseqüentemente também será benéfica ao meio ambiente não só do país, mas de todo o Planeta. Pois de acordo com o pensamento do físico Fritjof Capra, a vida na Terra é uma teia, o que sofrer qualquer integrante dela, será sentido por todos. 


Vídeo Ativismo

Débora Diniz¹ afirma que no campo do vídeo-ativismo a principal característica é assumir a verdade, onde através de evidências e conhecimento se constrói a narrativa, não havendo direção dos indivíduos. Sugere que qualquer pesquisador em ciências humanas tenha um posicionamento político, e por isso, a prática do documentário-verdade deve ser arraigada de ideologia. O vídeo-ativista deve estar bem convencido de que a causa seja justa, nobre e válida, para que possa fazer o convencimento dos leigos, ou seja, dos que pressupostamente não sabem nada sobre o caso.

Devem ser registradas todas as primeiras percepções, inclusive as que podem vir a comprovar o contrário, pois um argumento só será real e válido se a partir de seu contraponto for possível a comprovação da tese, portanto, a narrativa tem que ser confiável. Diferente do vídeo-pedagógico – como é o caso dos de Educação Ambiental – onde não é necessária a exposição do posicionamento contrário, assim como nos vídeos-institucionais, ambos são elaborados para promoção de uma idéia ou instituição, possuem narrativa, mas geralmente não são polêmicos ou dramáticos.

Débora não considera seus vídeos como arte, apesar de reconhecer que faz arte-visual, no entanto, trata-os como instrumentos de afirmação política. Por isso não se frustra quando um expectador que não seja favorável a causa rechaça o filme. Mas espera que a crítica seja racional, com argumentos, pois assim, como ela tem consciência de que a idéia seja justa, possui elementos suficientes para o debate.

Diniz não usa câmera escondida, não viola a integridade dos filmados e os coloca como última instância para a deliberação se as imagens poderão ou não ser usadas. O sucesso do vídeo-ativismo está na definição do público e em atingi-lo. Os únicos recursos essenciais para a produção desse instrumento é um computador e uma câmera HDV (High Definition Digital Video), portanto não é dispendioso, não requer superproduções.

A seguir alguns curtas produzidos por Débora Diniz que podem exemplificar o vídeo-ativismo:

•    Uma História Severina: o cordel, a música, um filme. 23 min. Débora Diniz e Eliane Brum. Brasil, 2005.
•    A Casa dos Mortos. 24 min. Débora Diniz. Brasil, 2009.
•    Solitário Anônimo. 18 min. Débora Diniz. Brasil, 2007.

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¹ DINIZ, Débora. [palestra] 30 jun 2010, Brasília (Seminários Interdisciplinares, Programa de Pós-Graduação do Centro de Desenvolvimento Sustentável, Universidade de Brasília). O VIDEOATIVISMO COMO UMA FERRAMENTA DE PESQUISA E INTERVENÇÃO.