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Territórios indígenas em Goiás

antes e após as invasões europeias


Texto completo disponível apenas na versão impressa

Capítulo de Rodrigo Martins dos Santos publicado entre as páginas 27 e 48 da obra BICALHO, Poliene; MOURA, Marlene Ossami de; INY-KARAJÁ, Vanessa Hãtxu. (Org.). Povos Originários. MENDONÇA; JAIME (Coord.). Coleção Goiás +300 - Reflexão e Ressignificação, v. 6. Goiânia: Goiás+300, 2023.


Este capítulo é uma contribuição ao entendimento da localização geográfica dos territórios indígenas antes, durante e após as invasões européias[1], sobretudo no século XVIII, na região onde hoje é chamada de Estado de Goiás.

Mapear territórios no tempo é uma terefa com pouca precisão, especialmente em se tratando dos povos indígenas, devido à inexistência de um Estado centralizado que registrasse e controlasse o tráfego de pessoas. Ademais, o conceito de território na cosmovisão de muitos povos originários é bem mais amplo do que o utilizado nas esferas estatais modernas. Não há fronteiras definidas, os grupamentos humanos se movimentam pelo espaço independentemente de já haver ali outra etnia, pois entendem o solo como um bem inapropriável (MARTINS DOS SANTOS, 2021a).

Martius (1867a) foi pioneiro nesse tipo de mapeamento, sendo autor do primeiro mapa etnolinguístico do Brasil, que agrupa as diversas famílias linguísticas indígenas conhecidas à época.[2] Ratzel (1912 [1891], p. 482; 1909 [1882], p. 28), por sua vez, apresenta a primeira proposta metodológica para o mapeamento de áreas culturais, onde a língua é um dos principais elementos que participam da construção da identidade étnica dos grupos sociais. Esses estudos foram aprimorados por Carl Sauer e Franz Boas, influenciando os mapas de John Mason, Curt Nimuendaju (2002 [1944]) e Eduardo Galvão, sendo aperfeiçoados por Loukotka (1967) e Kaufman (2007).

            O presente texto é focado nos limites do atual Estado de Goiás, a partir de estudos antropogeográficos sobre o Planalto Central Brasileiro (cf. MARTINS DOS SANTOS, 2013). Outrossim, apresenta uma proposta do remodelamento territorial indígena com base no conceito da desterritorialização etnolinguística, que vem sendo aplicado em estudos similares no leste e sudeste do Brasil (MARTINS DOS SANTOS, 2021b).

            A desterritorialização etnolinguística resulta do fenômeno da globalização (RAFFESTIN, 1993 [1980]), que amplifica o processo de homogeneização cultural. Elimina idiomas e identidades ancestrais em favor de uma racionalidade (ou cosmologia) homogênea e europeizada, conduzida pelo colonizador (RATZEL, 1912, p. 191). Por isso, faz-se necessário descolonizá-la (QUIJANO, 2005). Ou seja, repensar o processo de formação do território brasileiro sobre a multiterritorialidade de Abya Yala[3] como uma invasão (ACOSTA, 2016).

            O conceito de território aqui adotado é o de um espaço de poder, mais ou menos delimitado, que possui um sujeito dominante (RAFFESTIN, 1993, p. 143). Sobre um mesmo território, sujeitos equivalentes dificilmente sobrepõem domínios. Dessa forma, território etnolinguístico é o espaço de domínio de determinada família linguística étnica[4]. O sujeito, portanto, é etnolinguístico. Neste sentido, é a porção de terra onde, provavelmente, o idioma das etnias, ali residentes em determinada época, constituía uma mesma família.

    O tronco Macro-Jê não será abordado, visto a falta de consenso demonstrativo (RODRIGUES, 2013). Diferentemente dos troncos Tupi e Indoeuropeu, que possuem paleolínguas mátrias, diversificadas no tempo, as línguas do Brasil central devem ter-se originado de distintas pátrias, por mini-paleogrupos, milênios depois rodeados por nações Tupi.

(...)

 Mapa 1. Territórios etnolinguísticas na região atualmente chamada de Estado de Goiás, início do séc. XVIII.

Cartografia: Rodrigo Martins dos Santos, 2023.

(...)

Mapa 2. Frentes da invasão europeia sobre territórios indígenas em Goiás ao longo do século XVIII.
Cartografia: Rodrigo Martins dos Santos, 2023.

(...)

Considerações Finais

 

            Como visto, os povos originários de Goiás tiveram seu território ancestral esbulhado por invasores, capitaneados pela estratégia colonial europeia. Inicialmente utilizando antigos caminhos indígenas, é provável que as frentes invasoras tenham buscado, em seguida, as regiões menos povoadas, pois acompanharam, em certa medida, as fronteiras territoriais desses povos. Essa estratégia evitava o confronto direto com povos no percurso, nas zonas de maior densidade populacional. Isto, porém, deve ter intensificado o processo de divisão étnica de alguns povos, como os falantes da língua Akwen nas distintas etnias A’uwe-Xavante, Akwê-Xerente e Xakriabá.

            Este capítulo buscou apresentar uma breve introdução à questão territorial indígena em Goiás. No presente livro, o leitor poderá obter informações mais aprofundadas, nos capítulos seguintes, sobre alguns dos povos aqui retratados.

            A causa indígena não é apenas dos povos indígenas, mas de todo cidadão que deseja paz e justiça. Os povos originários de Goiás podem ser enquadrados entre aqueles que mais sofreram genocídio, epistemicídio e esbulho territorial dentre todos do planeta. Para amenizar isso, faz-se necessário reconhecer seu passado e seu presente e lutar pelos direitos territoriais e culturais de seus descendentes, garantidos na Constituição Federal.

            As pressões contra esses direitos continuam sendo emanandas dos mesmos grileiros e latifundiários, herdeiros ideológicos dos bandeirantes. Junto a eles, grupos neopetencostais, sucessores dos missionários cristãos, formam a conhecida bancada BBB (boi, bala, bíblia). Essa retrógrada força política, econômica e social que obstrui a retomada territorial dos povos originários, na tentativa de reduzir ainda mais a diversidade étnica e linguística do país.



[1] As invasões europeias no Brasil configuram-se num complexo de eventos históricos promovido por cortes europeias, sobretudo de Portugal e Espanha, a partir do final do século XV, sob a tutela da Igreja Católica, e secundariamente por França, Holanda e Inglaterra, dando origem às bases da formação do povo luso-brasileiro e, posteriormente, o Estado Brasileiro (cf. RIBEIRO, 2011).

[2] Igualmente introduziu o termo “Gê” para denominar a família linguística atualmente conhecida como Jê. Tal escolha é baseada no fato de que muitos povos dessa família utilizavam esse termo para se autodenominar, como Apinagez, Crangez, Kempokatagê, Piocobjê, Kemkatejé, Kanakatejé, Krengez, entre outros. A família linguística Jê abrange a maioria dos povos que habitavam os cerrados de Goiás, São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Maranhão e Piauí durante as invasões europeias. Conjuntamente, o referido mapa apresenta a primeira proposta de rota de migração de povos Tupi-Guarani da Amazônia para o litoral brasileiro.

[3] Abya Yala é como o continente americano é chamado pelos povos nativos, conforme afirmado na “Declaración de Kito” (2004), da II Cumbre Continental de los Pueblos y Nacionalidades Indígenas de Abya Yala.

[4] O conceito de família linguística surgiu da necessidade de se agrupar as línguas em função de uma origem comum, uma mesma protolíngua. A relação de diversas famílias com uma protolíngua principal mais antiga é chamada de tronco linguístico. Os dialetos, por sua vez, seriam as pequenas variações dentro de uma mesma língua. A importância do idioma para o agrupamento das etnias se dá em virtude de que é um critério mais seguro de classificação cultural do que outros traços étnicos (CAMARA Jr., 1977, p. 140-142).


Mapping indigenous peoples from Central Brazil between 1700-1900 AD

A Contribution to Nimuendaju's Ethno-Historical Map using IBGE's Database, and other sources


Abstract. This paper locates indigenous peoples who dwelt the Brazilian Central Plateau and surrounding areas during the 17th, 18th, and 19th centuries. It has used as main source the Curt Nimuendaju's ethno-historical map, made in 1944 and first published by IBGE (Brazilian Institute of Geography and Statics) in 1981. As another source of information it has used the Čestmír Loukotka's ethno-linguistic map, published by the Association of American Geographers in 1967. Furthermore, this research also carried out an unprecedented mapping of the location of ethnic groups, as well as the first Luso-Brazilian villages, using the municipal historical descriptions within IBGE Cidades database. It is illustrated through temporal maps the successive occupations (and depopulation) of indigenous peoples in their territories at intervals of 50 to 50 years, since the year 1700 AD until the year 1900 AD. The conclusions are that there were at least 200 ethnic groups in the Brazilian Central Highlands and surrounding areas. Keywords. Central Brazil, Ethno-Geography, Ethno-Cartography, Ethnohistory.


Keywords: Central Brazil, Ethno-Geography, Ethno-Cartography, Ethnohistory

1.       Introduction

The first relevant study concerned on mapping the location of indigenous peoples in Brazil is due to the German naturalist Carl Martius (1867a). Said author has grouped all Brazilian indigenous language families that had news. It was the first time used the term to be named the language family now called in Brazil . His choice was based on the fact that most of the people speaking the languages of this family use the term Gê to call themselves, e.g. Apinagez and Crangez (Senna 1908: 14), among others as Kempokatagê, Piocobjê, Kemkatejé, Kanakatejé and Krengez (Santos 2013).

The language family covers most people who live (and lived) in the Brazilian savannas in the states of Goiás, Minas Gerais, Bahia, Maranhão and Piaui, called in this article as Gerais of Brazilian Central Plateau at the time of the Luso-Brazilian invasions. In addition to them, some Tupi, Kariri, Pimenteira among others, were also within in this area somehow (Santos 2013).

This paper will seek to present through maps and tables the multi-ethnicity which existed in the Brazilian Central Highlands and surrounding areas. In order to achieve this, information from ethno cartography made by Curt Nimuendaju (2002 [1944]) and Certmir Loukotka (1967) was collected. Historical maps produced during the 18th and 19th centuries, archived in libraries in Portugal and Brazil were also used. Besides, historical data extracted from IBGE Cidades (IBGE, 2012) were used to increase information that have never been mapped before

2.       Mapping Indians from Brazilian Central Plateau

Brazilian Central Plateau ethno-linguistic map around 1700 A.D. 

3.       Conclusion


This paper sought to present through maps and tables the multi-ethnicity which existed in the Brazilian Central Highlands and surrounding areas. In total 200 groups were identified living within the region, of whom 112 were already contained on the Nimuendaju's map. Among the 88 added, 61 were identified on the Loukotka's map, while 22 were identified from the IBGE Cidades database, and five were found in both sources.

This research identified 509 places where these ethnic groups were located, in which 208 were already shown on Nimuendaju's map. The other 301 sites were extracted as follows: 154 from Loukotka's map, 139 from IBGE Cidades database and eight taken from historical maps (archived in Portuguese and Brazilian libraries, such as Conselho Nacional Ultramarino and Sociedade Geográfica in Lisbon, Biblioteca Pública in Évora-Portugal, and Biblioteca Nacional in Rio de Janeiro).

This information about sites and ethnic groups has been showed on the five attached maps.

Currently, few indigenous peoples from Cerrado biome (Brazilian Savanna) are trapped in small native biome fragments that still remain. With the advance of monoculture (soy, eucalyptus and cattle) over these areas they will certainly disappear, and with them a knowledge that originates from over 10 000 years ago in this portion of the world. To avoid this, it is necessary conclude strategies to rescue and enhance the cultural and natural heritage of the Cerrado biome, creating protected areas and fostering projects of ethno-environmental recovery, including, therein, indigenous peoples both as sources of information and as agents in this conservation.


The education of our society is fundamental to reverse this process. It is necessary that our children know the past focused on the territory of their current addresses. People suffered and lost their lives and territory to make the society possible which now uses it. The past is part of the humanity's identity. The errors were ours and therefore we have to correct them.

workpaper sought to present through maps and tables the multi-ethnicity which existed in the Brazilian Central Highlands and surrounding areas. In total 200 groups were identified living within this region, of whom 112 were already contained on the Nimuendaju's map. Among the 88 added, 61 were identified on the Loukotka's map, 22 from the IBGE Cidades' municipal historical database, and five in both sources.





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Povos do Planalto Central e adjacências nos séculos XVII, XVIII e XIX


Resumo
O artigo localiza povos indígenas que habitavam o Planalto Central e regiões adjacentes nos séculos  XVII, XVIII e XIX. São utilizados como fonte o mapa etnohistórico de Curt Nimuendaju e o etnolinguístico de Čestmír Loukotka. Também é realizado um mapeamento inédito da localização de etnias constantes nos históricos municipais do banco de dados IBGE cidades. São ilustradas, por meio de mapas temporais as sucessivas ocupações indígenas da região em intervalos de 50 em 50 anos, desde o ano de 1700 até o ano de 1900. As conclusões são de que houve, pelo menos, 200 etnias no Planalto Central e adjacências.

Palavras-Chave: Etnogeografia; Cartografia Indígena; Índios; Brasil Central.


Introdução

O primeiro estudo relevante preocupado em mapear a localização dos povos indígenas no Brasil é devido a Carl Martius (1867a). O referido autor agrupou todas as famílias linguísticas indígenas brasileiras que se tinha notícia. Foi a primeira vez que se usou o termo “Gê” para se denominar a família linguística atualmente chamada no Brasil de Jê, sua escolha baseou-se no fato de que grande parte dos povos falantes das línguas dessa família utilizam o termo Gê para se autodenominar, como Apinagez, Crangez (Senna, 1908:14), dentre outros como, Kempokatagê, Piocobjê, Kemkatejé, Kanakatejé, Krengez etc.

A família linguística Jê abrange a maioria dos povos que vivem (e viveram) nos cerrados goianos, mineiros, baianos, maranhenses e piauienses, chamados no presente artigo de Gerais do Planalto Central, na época das invasões luso-brasileiras. Além deles, alguns tupis, kariris, pimenteiras dentre outros, também estiveram presentes de alguma forma (Santos, 2013).


Mapa Etno-linguístico do Planalto Central e adjacências - por volta do ano de 1700 d.C.
Mapa Etno-linguístico do Planalto Central do Brasil e adjacências - por volta do ano de 1700 d.C.

Conclusão

O presente artigo procurou apresentar por meio de mapas e quadros a multietnicidade que existiu no Planalto Central e adjacências. Ao total foram identificados 200 povos na região, destes, 112 já constavam no mapa de Nimuendaju. Dos 88 adicionados, 61 foram identificados no mapa de Loukotka, 22 nos históricos municipais do IBGE, e 5 em ambas fontes. 

Ao total foram 509 locais onde situavam estas etnias, apresentados nos mapas finais, sendo que 208 já constavam no mapa de Nimuendaju. Os 301 novos locais foram extraídos da seguinte forma: 154 no de Loukotka, 139 nos históricos municipais e 8 em cartografia histórica.

Atualmente os poucos povos indígenas do Cerrado estão encurralados nos pequenos fragmentos do bioma que ainda restam. Com o avanço da monocultura sobre essas áreas, certamente eles desaparecerão, e com eles, um conhecimento que vêm de mais de 10.000 anos sobre essa porção do planeta Terra. Para evitar isso é necessário estratégias de resgate e valorização do patrimônio cultural e natural do Cerrado, criando áreas protegidas e fomentando projetos de valorização etno-ambiental, incluindo aí os povos indígenas como fontes de informação e como agentes nessa conservação.

A educação da nossa sociedade é fundamental para se reverter esse processo. É preciso que nossas crianças saibam do passado incidido sob o território de suas atuais moradas. Povos sofreram para que a nossa sociedade nacional pudessem ter e ser o que é hoje. É parte de nossa identidade esse nosso passado. Os erros foram nossos e, portanto, temos que corrigi-los.

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Artigo publicado nos anais do 2.º Simpósio Brasileiro de Cartografia Histórica, organizado pelo Centro de Referência em Cartografia Histórica da Universidade Federal de Minas Gerais; e que ocorreu na cidade de Tiradentes-MG, em 2014.

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Etno-história na oralidade Xakriabá: retomando o Rio São Francisco em Minas Gerais, Brasil

Rodrigo Martins dos Santos
Ludivine Eloy


RESUMO

Apresenta elementos da história do povo Xakriabá a partir de relatos orais de moradores de aldeias do município de São João das Missões, Minas Gerais. As perguntas centrais desta pesquisa são: Como foi o contato do Xakriabá com o colonizador? Quais foram os fatos marcantes que estão na memória do povo? Quais foram as conquistas? Para esta investigação foi adotado o uso da história de vida como técnica de abordagem aos entrevistados, aplicada em novembro de 2011. Como material de apoio utilizou-se cartografia, documentos históricos, teses, dissertações e livros. O diferencial desta abordagem está nos produtos gerados: ilustrações na forma de mapas, transectos da paisagem (perfis de caminhamento) e cronologia dos fatos. Os relatos apresentam informações de que os Akwén-Xakriabá, também conhecidos como Caboclos do Senhor São João, viviam às margens do rio São Francisco, de onde foram expulsos primeiramente devido à guerras com os bandeirantes no final do século XVII. Em seguida, no século XVIII, após apoiarem os colonos na expulsão dos índios Cayapó, e os jesuítas implantarem uma missão em seu território, recebem terras na forma de “doação”. Nos anos que se sucederam foram miscigenando com negros e camponeses brancos, até que no final do século XIX são pressionados por pecuaristas, e passam a viver nas serras. Com a chegada dos projetos de “reforma agrária” do governo militar em meados da década de 1960, suas terras são alvo de esbulho pelo estado de Minas Gerais. A partir de então, os Xakriabá buscam apoio da FUNAI, que por sua vez inicia o processo de (re)conhecimento da indianidade dos Caboclos. Foi uma violenta trajetória até conseguirem a demarcação de parte de seu território como terra indígena, muitas lideranças foram ameaçadas por fazendeiros locais, culminando na chacina de um cacique e sua família, em 1987. Este trágico episódio mobilizou a mídia nacional e internacional, trazendo enfim a demarcação do primeiro trecho de suas terras. Em 2000 é demarcado o segundo trecho. Mas, continuam reivindicando o acesso ao Rio São Francisco, local de ligação ancestral de seu povo, onde muitos resistem. Após esta breve análise da história dos Xakriabá, poderíamos questionar: Será que muitos indígenas do sertão brasileiro passaram por situações semelhantes, especialmente os povos emergentes do Nordeste? Teriam estes também migrado de terrenos férteis para locais onde os recursos são menos favoráveis, sob pressão dos colonizadores? Questões para outras pesquisas.

Palavras - chave: Território; Xakriabá; Rio São Francisco.


Org. Rodrigo Martins dos Santos
Fluxos Migratórios Xakriabá. Org. Rodrigo M. Santos, 2012.


RESUMEN

Introduce elementos de la historia de los indios Xakriabá por medio de relatos orales de los pobladores en el municipio de São João das Missões, Minas Gerais. Las preguntas centrales de esta investigación son: ¿Cómo fue el contacto entre el Xakriabá y colonizador? ¿Cuáles fueron los hitos que están en la memoria de la gente? ¿Cuáles fueron los logros? Para esta investigación hemos adoptado el uso de la historia de la vida como un enfoque técnico a los encuestados, aplicado en noviembre de 2011. Como material de apoyo se utilizó mapas, documentos históricos, tesis, disertaciones y libros. La diferencia de este enfoque es en los productos generados: ilustraciones en forma de mapas, perfiles del paisaje transecto (perfiles) y la cronología de los acontecimientos. Los informes proporcionan información que Akwen-Xakriabá, también conocido como Caboclos do Senhor São João, vivían en cerca del río San Francisco, donde fueron expulsados ​​debido principalmente a las guerras con los pioneros de finales del siglo XVII. Luego, en el siglo XVIII, después que apoyaron los colonos en la expulsión de los indios Cayapó, y los jesuitas desplegar una misión en su territorio, recibirán la tierra en forma de "regalo". En los años que siguieron fueron miscigenando con agricultores blancos y negros. En finales del siglo XIX son presionados por los proprietários de fincas, y empezan a vivir en las montañas. Con la llegada de los proyectos de "reforma agrario" del gobierno militar de mediados de 1960, sus tierras están sujetas a expropiación por el estado de Minas Gerais. Desde entonces, el Xakriabá buscar el apoyo de la FUNAI, que a su vez inicia el proceso de (re) conocimiento de su indianidad. Fue un camino violento para lograr la demarcación de su territorio, muchos fueron amenazados por los agricultores locales, que culminó en la masacre de un jefe indigena y su familia en 1987. Este trágico episodio movilizó a los medios de comunicación nacionales e internacionales, finalmente, llevar a la demarcación de la primera etapa de sus tierras. En el año 2000 marcó la segunda etapa. Sin embargo, sigue reclamando el acceso al río, lugar ancestral de unión de su pueblo, donde muchos se resisten. Después de este breve análisis de la historia de los Xakriabá, podríamos preguntar: ¿Lo és que muchos indios de las tierras del interior de Brasil ha passado situaciones similares, especialmente las naciones emergentes del Noreste? ¿Ha tenido también emigracion de tierras fértiles para otras donde los recursos son menos favorables, bajo la presión de los colonos? Las preguntas para futuras investigaciones.

Palabras clave: Território; Xakriabá; Rio São Francisco.


ABSTRACT

Introduces elements of the history of the indians Xakriabá trought oral accounts from villagers in the municipality of São João das Missões, Texas. The central questions of this research are: How was the contact betwen Xakriabá and the settlers? What were the milestones that are in memory of the people? What were the achievements? For this investigation we adopted the use of life history as a technical approach to the respondents, applied in November 2011. As support material was used maps, historical documents, theses, dissertations and books. The difference of this approach is in the products generated: illustrations in the form of maps, landscape transect profiles (pathway) and chronology of events. The reports provide information that Akwen-Xakriabá, also known as Caboclos do Senhor São João, lived at the river San Francisco, where they were expelled primarily due to wars with the pioneers in the late seventeenth century. Then in the eighteenth century, after the settlers support the expulsion of indians Cayapó, and deploy a Jesuit mission in their territory receive land in the form of "gift". In the years that followed were amalgamating with black and white farmers until the late nineteenth century by farmers are pressed, and start living in the mountains. With the arrival of the projects of "agrarian reform" of the military government in the mid-1960s, their lands are subject to dispossession by the state of Minas Gerais. Since then, the Xakriabá seek support from FUNAI, which in turn starts the process of (re)cognition of the indianness of the Caboclos. It was a violent path to achieve the demarcation of their territory as indigenous, many leaders were threatened by local farmers, culminating in the massacre of a chief and his family in 1987. This tragic event mobilized national and international media, finally bringing the demarcation of the first leg of their lands. In 2000 it marked the second sentence. But, still claiming access to the River, ancestral binding site of his people, where many people resist. After this brief analysis of the history of Xakriabá, we might ask: Would many Indians of the Brazilian backlands through similar situations, especially the emerging nations of the Northeast? Did they also migrated to the fertile land where resources are less favorable, under pressure from settlers? Questions for further research.


Keywords: Territory, Xakriabá, São Francisco river


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Artigo originalmente apresentado no II CIAEE - Congresso Iberoamericano de Arqueologia, Etnologia e Etno-história, organizado pela UFGD, e que ocorreu no campus de Dourados, Faculdade de Ciências Humanas, em 2012.

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Reparação Étnico-Racial: Importância dos mapas etno-históricos no conteúdo escolar

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RESUMO

Apresento instrumentos da educação escolar nacional brasileira que buscam reparar injustiças cometidas junto aos diversos povos nativos, tanto pelo Estado como pelos seus cidadãos, no decorrer da história. Faço uma breve avaliação da legislação sobre a temática e o papel do material didático. Depois, enfoco o uso de mapas etno-históricos como instrumentos de transmissão de informações necessárias para essa reparação étnico-racial. Como exemplo, explano sobre o processo de colonização do Brasil Central e a importância de se esclarecer junto aos educandos não-indígenas – por meio de mapas e atlas histórico-geográficos – os fatos que levaram a hegemonia luso-brasileira na região, em detrimento da redução dos povos nativos. Estes fatos contribuirão na formação crítica dos estudantes, compreendendo a origem dos conflitos fundiários entre índios e fazendeiros, e possibilitando o respeito às etnias formadoras do país.
Palavras-chave: Educação, indígena, material didático, cartografia, Brasil Central.


RESUMEN
Presento instrumentos de enseñaza brasileña que buscan reparar las injusticias cometidas com los diversos pueblos indígenas, tanto por parte del Estado y de sus ciudadanos, a lo largo de la historia. Brevemente reviso la legislación sobre el tema y el papel del material didáctico. Luego me centro en el uso de mapas etno-históricos como herramientas para la transmisión de información necesaria para dicha reparación étnico-racial. Como ejemplo, explano sobre el proceso de colonización del Brasil central y la importancia de aclarar com los estudiantes no indígenas – a través de mapas y atlas histórico-geográficos – los hechos que llevaron a la hegemonía portuguesa-brasileña en la región, com la reducción de los pueblos indígenas. Estos hechos contribuyen em la formación crítica de los estudiantes, incluyendo el origen de los conflictos de tierras entre los indígenas y los agricultores, y permitir el respeto de los grupos étnicos del país.
Palavras clave: Educación, indígena, materiales de enseñanza, cartografía, Brasil Central.



INTRODUÇÃO

            Durante quase cinco séculos, no Brasil, apenas se valorizou o conhecimento e filosofia advindos do continente europeu, devido a colonização lusitana. Muitos povos foram forçados a contribuírem na formação deste novo país por meio de trabalho escravo, usurpação de suas terras e aproveitamento de seus conhecimentos e tecnologias alimentares, medicinais, geográficos, dentre outros. Estes grupos sociais eram constituídos, principalmente, de etnias indígenas e africanas.
            Os povos indígenas, nestes cinco séculos de história, resistiram a política de genocídio, etnocídio ou integração forçada a uma nova etnia nacional. O ideário de construção de um Estado-nação atropelou qualquer diferença étnico-racial existente na sociedade, e prezava para a formação de um povo miscigenado, mestiço, onde o ancestral indígena figurava apenas no passado histórico como antigo povoador da terra, em vias de desaparecer do continente.
            O conteúdo escolar no Brasil durante muito tempo colocou o indígena como uma figura primitiva, atrasada, longe da realidade moderna, e que tendia a extinção. As imagens positivas traziam o nativo como um ente mitológico, épico e puro, que apenas ilustrava a fantasia da raiz de uma nação.
            A política educacional negava as diferenças étnicas do país, seja na educação formal, seja na educação promovida junto aos povos, efetuada principalmente por missionários religiosos que faziam com que os índios se transformassem em algo diferente do que eram. Neste processo, a instituição da escola entre grupos indígenas serviu de instrumento de imposição de valores alheios e negação de identidades e culturas diferenciadas (BRASIL, 2001).
O pluralismo étnico, presente no país, apenas recentemente foi reconhecido pelo Estado através de sua última Constituição Federal (CF), promulgada em 1988 e vigente desde então. Onde, por meio do titulo VIII (da ordem social), capítulo VIII (dos índios), mais especificamente no artigo 231, reconhece “aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam”. O artigo 232, por sua vez, elimina a figura da tutelagem indígena exercida pelo Estado até então (BRASIL, 1988).
Além desse capítulo exclusivo aos índios, o § 1º do artigo 215 da CF, integrante do capítulo III (da educação, da cultura e do desporto), prevê que “o Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional”. O § 3º do referido artigo também cria a figura do Plano Nacional de Cultura, que deverá conduzir a “valorização da diversidade étnica e regional”. O artigo 216 que trata do patrimônio cultural brasileiro também remete a diversidade étnico-racial do país (BRASIL, op cit.).
Antes da atual CF, não havia base legal que sustentasse uma afirmação étnica ou racial, levando os brasileiros afro-descentes ou indígenas à marginalização enquanto grupo distinto da prevalência branca e euro-descendente.
No entanto, para uma regulamentação completa do direito indígena do ponto de vista legal, se faz necessário a sanção do novo Estatuto dos Povos Indígenas, em discussão no Congresso desde 1991, e que deverá substituir o já ultrapassado Estatuto dos Índios (Lei 6.001/73). Este que é recheado de termos e conceitos pejorativos e preconceituosos, como, por exemplo, o de que o indígena está em um estado primitivo cujo destino será a integração à sociedade nacional. Idéia presente desde os tempos da colonização, e que só agora, no indigenismo moderno, é tida como ultrapassada. Em seu lugar pensa-se no protagonismo ou autonomismo dos povos indígenas, onde cada vez mais as próprias etnias decidirão sobre seus destinos sem a necessidade de interlocutores alienígenas (R. SANTOS, 2012).
            A partir do reconhecimento constitucional, muitas pessoas que antes tinham receio de se afirmarem índios – e também negros – passaram a fazê-lo, transformando a cara dos resultados censitários do país. Muitos povos indígenas passaram a “ressurgir” – bem como pessoas de cor preta passaram a se assumir enquanto tal.
            Em relação a questão indígena, a Tabela 1 apresenta o resultado dos últimos censos demográficos realizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), órgão oficial de contagem da população brasileira.

Tabela 1. Evolução da população indígena de 1991 a 2010.

1991
2000
2010
Variação de 1991 a 2010
não-indígena¹
145.986.780
167.932.053
189.931.228
30,1 %
indígena
294.131
734.127
817.963
178,1 %
não declarou
534.879
1.206.676
6.608
-98,8 %
TOTAL
146.815.790
169.872.856
190.755.799
29,9 %
         Adaptado de IBGE (2012).                                     ¹ inclui brancos, pretos, pardos e amarelos

Os dados do IBGE revelam que a população brasileira em 1991 era de 146,8 milhões de pessoas, atingindo 190,7 milhões em 2010, um crescimento de 29,9%. No mesmo período, a população auto-declarada indígena foi de 294,1 mil para 817,9 mil, um crescimento de 178,1%. A este resultado podemos inferir um aumento na taxa de fecundidade das mulheres indígenas e melhoria da saúde da população, mas também, acrescenta a isso o fenômeno do “ressurgimento” étnico de povos indígenas, principalmente no nordeste brasileiro, onde pessoas que antes não se declaravam índios devido a diversos fatores (principalmente a discriminação pela sociedade envoltória), passaram a fazê-la, pois

as modificações por que passa a região [nordeste], a presença de agências indigenistas ou missionárias que apoiam as populações indígenas, a reivindicação da garantia das poucas terras de que ainda dispõem ou da recuperação das terras perdidas, têm propiciado a grupos que escondiam, devido às perseguições do passado, sua identidade indígena, que voltem a assumi-la. Desse modo, o Nordeste é palco de um drama em que etnias se desdobram, se fundem, ressurgem. (MELATI, 2011, p. 05)


Corroborando com essa hipótese há outro dado curioso presente no censo do IBGE: em 1991, 534,8 mil pessoas não declararam sua cor/raça; essa mesma questão foi negada ser respondida por mais de 1,2 milhões de pessoas em 2000; caindo para menos de sete mil em 2010.
Isso pode estar relacionado, ainda, às políticas de reparação étnico-racial que passaram a ser oficializadas no país nos últimos anos, como o sistema de cotas e a implantação de uma história crítica no currículo escolar do ensino básico, contribuindo para que mais pessoas afirmem a sua identidade de indígena ou afro-brasileiro.
A partir disso, surge o seguinte problema: o fortalecimento de um conteúdo histórico que apresenta a violência sofrida pelos índios no processo de colonização do país seria uma política eficiente? Qual o papel do material didático nessa política de educação reparadora? Como os mapas poderiam contribuir para a reparação das injustiças sofridas pelos povos indígenas?
Acredito que a eficiência de uma política educacional direcionada a todos os brasileiros, valorizando a história dos povos/raças que contribuíram no processo de formação do país se faz urgente e necessária, seus resultados mais efetivos serão à longo prazo – como grande parte das políticas de educação – mas alguns benefícios já são sensivelmente perceptíveis, principalmente através de mudanças nos instrumentos legais.
O material didático é fundamental nesse processo, mas não é exclusivo, deve acompanhar uma formação crítica do quadro docente do ensino básico que incorpore a importância da reparação das injustiças sofridas pelas diversas etnias que formaram o país.
Os mapas, por sua vez, podem ser usados como ferramentas que demonstrem onde estavam e para onde foram os povos nativos sobreviventes, e como se deu o avanço colonial. Esclarecendo, assim, as raízes de muitos conflitos fundiários atuais, como os existentes na fronteira entre o avanço agropecuário e os territórios indígenas, bem como trazendo uma reflexão aos educandos sobre a questão do domínio, posse, localização e extensão das terras dos povos originários.
O presente texto traz elementos que buscam contribuir no entendimento dessa problemática, especialmente no que tange a educação formal à população não-indígena. Não será focado o trabalho de educação junto aos povos indígenas, que também é de vital importância para o sucesso dessa reparação.

A reparação histórica na legislação educacional brasileira

Como já posto, a Constituição Federal foi o grande marco para a reparação das injustiças cometidas aos povos nativos. O § 1º do artigo 242 prevê que “o ensino da História do Brasil levará em conta as contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro”. Ou seja, a carta-magna do Brasil estabelece que o conteúdo da educação escolar dos brasileiros deverá estar a favor dessa reparação étnico-racial (BRASIL, 1988).
De uma forma mais específica, a Lei 9.394/96 – Diretrizes de Bases da Educação (LDB) – conta com dispositivos que obrigam incluir o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena, graças a redação dada pela Lei 11.645/08, que acrescentou o Art. 26-A à LDB:

Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena. O conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira, a partir desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil. Os conteúdos referentes à história e cultura afro-brasileira e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística e de literatura e história brasileiras (BRASIL, 1996, Art. 26-A, incluído pela Lei 11.645/08).


Além dessa premissa, a Política Nacional de Educação – Lei 10.172/01 – também estabelece que a educação escolar brasileira tenha como um de seus objetivos e metas:

Promover a correta e ampla informação da população brasileira em geral, sobre as sociedades e culturas indígenas, como meio de combater o desconhecimento, a intolerância e o preconceito em relação a essas populações (Brasil, 2001, item 9.3, subitem 10).


Para que essa prerrogativa tenha êxito, será necessário capacitar professores aptos a ministrar aulas de história, literatura e arte indígena e afro-brasileira na educação básica; além de dispor de material didático que trate dessa temática.
A formação do corpo docente da educação escolar tem como diretriz prevista na PNE a inclusão das etnias nos programas de formação, além de ter como um de seus objetivos e metas:

Incluir, nos currículos e programas dos cursos de formação de profissionais da educação, temas específicos da história, da cultura, dos conhecimentos, das manifestações artísticas e religiosas do segmento afro-brasileiro, das sociedades indígenas e dos trabalhadores rurais e sua contribuição na sociedade brasileira (BRASIL, 2001, item 10.3, subitem 21).


Assim, para que esses pontos sejam efetivados, será necessário que as universidades formadoras de professores do ensino básico, especialmente os cursos de licenciatura em pedagogia, história, letras e artes, abordem a questão afro-brasileira e indígena, promovendo pesquisas que aprofundem o conhecimento a respeito desses grupos étnico-raciais. A antropologia será um grande contribuinte para esse propósito.
Evidente que estas questões não deverão ficar exclusivamente a cargo dessas disciplinas citadas, pelo contrário, a transdisciplinaridade, abarcando a filosofia, ciência e tecnologia dos povos indígenas e afro-brasileiras, serão fundamentais para que, no futuro, haja mais equidade social entre as três matrizes étnico-raciais que constituíram o Brasil.
A PNE apresenta, ainda, como um dos objetivos e metas no ensino fundamental:

Manter e consolidar o programa de avaliação do livro didático criado pelo Ministério de Educação, estabelecendo entre seus critérios a adequada abordagem das questões de gênero e etnia e a eliminação de textos discriminatórios ou que reproduzam estereótipos acerca do papel da mulher, do negro e do índio (BRASIL, 2001, Item 2.3., subitem 11).


A citada Lei sinaliza como deve ser o conteúdo de uma das essenciais ferramentas da educação básica brasileira: os livros didáticos. Sendo necessário um conteúdo crítico. Além disso, os meios de comunicação educativos, em especial a televisão, também devem se adequar à diversidade étnica do país, eliminando estereótipos e preconceitos:

Promover imagens não estereotipadas de homens e mulheres na Televisão Educativa, incorporando em sua programação temas que afirmem pela igualdade de direitos entre homens e mulheres, assim como a adequada abordagem de temas referentes à etnia e portadores de necessidades especiais (BRASIL, 2001, item 6.3, subitem 7).


            Dessa forma, a atual legislação brasileira contempla a reparação das injustiças étnico-raciais, sendo a educação escolar dos não-índios uma importante estratégia dessa reparação. No entanto, a implantação dessa política educacional é que será o desafio. Para isso, além da formação de educadores com uma visão crítica sobre a história do Brasil, algumas ferramentas didáticas serão necessárias.

O mapa como instrumento didático de reparação etno-histórica

Laproni & Prieto (2011) apontam para a “necessidade de se implementar um conjunto de ações centradas, por um lado, no reconhecimento dos povos indígenas como parte da cultura nacional e, por outro, como grupo com as suas particularidades”, conforme consta no documento final da Conferência Nacional de Educação 2010. Além disso, o referido documento destaca a necessidade de promover o estudo dos povos indígenas nas escolas e a elaboração de propostas pedagógicas e materiais didáticos que reflitam as suas realidades (CONAE, 2010).
            As autoras citadas afirmam, ainda, que será necessário “garantir a presença da concepção de educação inclusiva, na formação inicial e continuada de professores, o que pressupõe a incorporação do respeito às diferenças e o reconhecimento e a valorização da diversidade”.
CONAE (op cit.) também indica que é necessário garantir o estudo/aprofundamento da história da África e culturas afro-brasileiras, cultura indígena e diversidade étnico-racial, conforme prevê a LDB. Mas como fazer isso?
Cada vez mais surgem ferramentas didáticas que tratam de uma forma crítica as questões indígena e negra no Brasil, principalmente em relação a história, como os livros didáticos de Schmidt (2005) ou Prezia e Hoonaert (2000). Também há autores indígenas como Daniel Muduruku e Olívio Jekupé, que possuem obras adotadas pela rede de ensino brasileira. Além de livros, outras mídias podem ser utilizadas como material didático, por exemplo os vídeos-educativos do projeto Vídeo nas Aldeias do Ministério da Educação, que possuem diversas produções cinematográficas dirigidas e produzidas por cineastas indígenas.
Matérias de jornais como o Porantim (editado pelo Conselho Indigenista Missionário) ou revistas como a Caros Amigos (da Editora Casa Amarela) e a Brasileiros de Raiz (Editora RRCK), também podem ser utilizadas em sala-de-aula para que o educando entenda o que se passa na fronteira entre o avanço agrícola e os povos indígenas. Além de entender o contexto do índio urbano, e outras situações onde há discriminação ao nativo.
            Os mapas e atlas também são importantes ferramentas didáticas, pois podem apresentar elementos geográficos da paisagem atual ou histórica. Uma ilustração vai além do idioma e pode se comunicar com pessoas de diversas culturas e línguas. Pode transmitir informações diretas e claras e apresenta grande facilidade de entendimento pelo interlocutor.
            Uma coleção de mapas, ou melhor, um atlas que apresente a evolução de deslocamento de grupos indígenas, juntamente com o surgimento de currais, povoados, freguesias e vilas, poderá ser elucidativo para se entender como se deu a expansão da colonização e retração da ocupação nativa, podendo inferir direções ou destinos.
O atlas elaborado por Anjos (2005) é uma inédita iniciativa no campo da educação para reparação étnico-racial no Brasil. Há ainda o atlas histórico de Jofilly (1998), que traz além de mapas, frisas-cronológicas, gráficos e resumo de importantes fatos que marcaram a história do país envolvendo, inclusive, povos nativos ou africanos. No entanto, ambos tratam o Brasil como um todo, não se debruçando em regiões ou casos específicos, deixando uma importante lacuna que, quando preenchida, poderá amenizar os conflitos localizados entre índios e a sociedade nacional.
A importância de uma educação às novas gerações é estratégica para o país. Caso os filhos dos neo-colonizadores continuarem o avanço sobre os povos originários, muitas outras tragédias ocorrerão. É necessário educá-los, mostrando como se deu o avanço agropecuário em sua região, onde estavam os indígenas. Quem são os invasores?
Mostrar que os índios, assim como todos os brasileiros, devem ser respeitados e podem conviver com os benefícios da humanidade, como o uso da tecnologia e bens de consumo. Mostrar que não pararam no tempo, assim como os não-índios, a humanidade sempre esteve em movimento, em modificação. Não vemos mais nas ruas pessoas trajando como os navegadores portugueses da era de Cabral, então porque os índios haveriam de estar nus como a séculos atrás?

A importância de um mapa etno-histórico do planalto central

            Todo o território brasileiro era ocupado por populações indígenas antes da chegada dos colonos europeus, a população nativa girava em torno de cinco milhões de indivíduos, pertencentes a milhares de etnias, falantes de outro milhar de línguas (RIBEIRO, 1995, p. 151).
Algumas regiões eram mais povoadas que outras. O cerrado, por exemplo, era habitado por horticultores de regiões secas, que viviam basicamente do cultivo de milhos e favas e, principalmente, de caça e pesca. Estes nativos pertenciam em sua maioria à família lingüística Jê, como os Akwén (Xavante, Xerente e Xakriabá) e os Kayapó (Panará e Kreen-Akarore), mas também haviam outras nações indígenas, como os Ãwá (Canoeiros), da família Tupi-Guarani, habitante das matas encravadas no interior do bioma (PREZIA; HOONAERT, 2000).
            O Mapa Etno-histórico de Curt Nimuendadjú (IBGE, 1987) indica a localização dos nativos grupos indígenas na época da colonização, menciona inclusive o último ano em que foi registrada alguma informação sobre determinada etnia na referida localidade. Mas, devido a sua escala nacional, é muito genérico, apresenta grandes áreas vazias, dando a impressão de que não haviam populações nativas em grande parte do Planalto Central. Mas será mesmo que estas áreas eram despovoadas? Esta hipótese é pouco provável em se tratando de uma região rica em rios piscosos e caça de porte, como o tamanduá, o veado, a anta, a ema, dentre outros.
            O bandeirante, instrumento de colonização da coroa portuguesa, enfrentou o nativo sertanejo, escravizou, garimpou e repovoou a terra, eliminou culturas, criou outra. Alguns povos deslocaram-se sertão à dentro e guerrearam entre si. Ao mesmo tempo um contingente constituído de brancos, pretos e mestiços (mulatos e mamelucos) frutos da miscigenação que vinha ocorrendo desde a ocupação do litoral, parte para o sertão “despovoado”, em busca de riqueza (ABREU, 1963).
Abreu (op cit.) sinaliza que essa nova atividade econômica estabelecida nos sertões trás como consequência a mudança do eixo econômico da colônia: sai do nordeste e vai para o centro-sul, em virtude do declínio da produção açucareira na primeira e ascensão das descobertas auríferas dos bandeirantes paulistas. O cerrado passa a ser colonizado efetivamente, milhares de portugueses, mamelucos e escravos são deslocados para a região das minas da Capitania de São Paulo. Esse boom populacional faz com que o território da capitania fosse dividido, surgem então Minas Geraes, Mato Grosso e Goyáz.
            Em menos de cem anos (durante o século XVIII) a região central do Brasil transforma-se de paisagem natural povoada por nativos, para a principal fonte de renda da coroa portuguesa, alterando para sempre o destino do país. A movimentação ocorrida no final do período colonial trouxe muitas transformações na paisagem do Planalto Central, diversas trilhas e caminhos foram estabelecidos, ligando os grandes centros urbanos da época à região dos garimpos, como a Estrada Colonial que ligava a cidade de Salvador (então capital do Brasil) à cidade de Vila Bela da Santíssima Trindade (antiga capital do Mato Grosso) ponto mais ocidental dos domínios portugueses na América do Sul da época (BERTRAND, 1999).
            Além disso, minas, engenhos, fazendas, povoados, aldeias, pastagens, roças, matas, capoeiras... iam surgindo e desaparecendo, numa movimentação constante, impulsionada pelo apogeu e decadência da atividade minerárias da região. Algumas perduram até os dias de hoje, são importantes cidades do estado de Goiás, como Pirinópolis, Formosa e Cavalcante, outras restam apenas ruínas.
            Poucos foram os autores que se importaram em representar essa trajetória colonial sobre os indígenas na região, mais raros ainda são os mapas que tratam dessa movimentação. Por isso a importância de um material cartográfico que traduza essa transformação da paisagem nativa nas atuais fazendas e cidades do Brasil Central.
            Faz-se necessário informar ao brasileiro, em idade escolar, que está em fase de formação enquanto cidadão, de que seu território não nasceu como é hoje, foi gradativamente sendo modificado, deixando marcas que podem explicar os motivos que levaram a atual configuração, seja ela físiográfica, seja cultural ou econômica.
            Ao cidadão brasileiro é fadada à grande mídia a sua formação de opinião, e se não tiverem uma educação crítica na idade escolar, dificilmente observarão nas entrelinhas de notícias como: “índios invadem fazendas”. Qual a verdadeira vítima do avanço agropecuário no país, que vem numa curva ascendente desde o século XVI?
            Dessa maneira, um atlas etno-histórico do Planalto Central repassará ao estudante informações de história e geografia, conjuntamente, que poderão servir tanto para o ensino básico, como para estudos mais aprofundados de antropologia, arqueologia, sociologia, ou para o desenvolvimento de projetos de resgate cultural, turístico, dentre outros. Em minha dissertação de mestrado o leitor poderá encontrar informações e mapas que poderão contribuir na elaboração desse material didático (cf. R. SANTOS, 2013).
            Poderá ser utilizado como instrumento capaz de subsidiar a verificação in locu do estado atual dos elementos que outrora povoaram e foram importantes para a configuração do país.

CONCLUSÃO

A educação é um instrumento fundamental para a transformação da realidade social. O conteúdo do que é passado às novas gerações será o pensamento dos futuros brasileiros, eleitores, funcionários públicos, operários, agricultores, empresários, professores, sejam eles índios ou não. Isso demonstra a sua responsabilidade para a formação das novas gerações.
Um conteúdo escolar de reparação étnico-racial, em especial nas artes e história, é previsto em nossa legislação. Conta com o respaldo legal para ser efetivado.
Alguns autores de material didático já estão se debruçando nesse novo desafio de tornar claro aos educandos os erros e injustiças cometidos por nossos antepassados europeus. Somado a isso está a formação dos educadores.
A resistência dos povos indígenas, com seu progressivo massacre e recuo, abriu espaço para a entrada violenta de novos habitantes, dando condições para a formação do país como conhecemos hoje. Estes fatos devem ser do conhecimento de todos nós brasileiros, devemos compartilhar esta história, para que possamos entender os nossos conflitos e superá-los, evitando mais etnocídio.
Mapas demonstrando essa movimentação, apontando as áreas originárias tanto dos povos que desapareceram como dos que resistiram, serão essenciais para a conscientização da opinião pública dos cidadãos do futuro, inclusive dos tomadores de decisão.
Todo cidadão tem o direito de conhecer a realidade dos fatos que levaram a sua existência, para que os erros cometidos por seus ancestrais não se repitam, e possam ser reparados na construção de uma sociedade mais justa e humana.

BIBLIOGRAFIA

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ANJOS, Rafael Sanzio Araújo dos. Coleção África-Brasil: Cartografia Para o Ensino-Aprendizagem Vol I. 2ª edição. Brasília: Mapas & Consultoria, 2005.
BERTRAND, Paulo. História da Terra e do Homem do Planalto Central: Eco-História do Distrito Federal, do indígena ao colonizador. Brasília: Paidéia, 1999.
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CONFERÊNCIA NACIONAL DE EDUCAÇÃO (CONAE) 2010. Construindo o Sistema Nacional articulado de Educação: o Plano Nacional de Educação, diretrizes e estratégias; Documento Final. Brasília, DF: MEC, 2010. 164p. Disponível em: <http://conae.mec.gov.br/images/stories/pdf/pdf/documetos/documento_final_sl.pdf>
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MELATTI, Júlio Cezar. Áreas Etnográicas da Améica Indígena: Nordeste. Brasília: UnB, 2011. Disponível em <http://www.juliomelatti.pro.br/areas/30nordeste.pdf>.
PREZIA, B.; HOONAERT, E. Brasil Indígena: 500 anos de resistência. São Paulo: FTD, 2000.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: A formação e o sentido do Brasil. 3.ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
SANTOS, Rodrigo Martins dos. Indigenous policy review in Brazil: Ideologies, rights and perspectives. In anais da Human Rights of Indigenous Peoples in Latin America Conference. Stanford: Stanford University, 2012. Original disponível em <http://humanrights.stanford.edu/publications/indigenous_policy_review_in_brazil_ideologies_rights_and_perspectives/>, versão traduzida para a Língua Portuguesa em <http://popygua.blogspot.com.br/2013/10/analise-da-politica-indigenista-no.html> acesso em 03 Out. 2013.
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SCHMIDT, Mario Furley. Nova história crítica. 1ª Ed. São Paulo: Nova Geração, 2005.


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