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MEMÓRIA XAKRIABA: migrações e mudanças alimentares

Rodrigo Martins dos Santos
Santo Caetano Barbosa, Cacique Xakriabá da aldeia Morro Vermelho (Catito)


Resumo
Apresentamos elementos da alimentação da etnia Xakriabá a partir de relatos orais de seus anciões de aldeias, no município de São João das Missões, Minas Gerais. A pesquisa visou responder às seguintes questões: Quais eram os alimentos (ingredientes e pratos) que existiam no passado e que, atualmente, não fazem mais parte da alimentação do  povo Xakriabá? Quais fatores contribuíram para essa transformação alimentar? Utilizamos a  técnica  da história de vida, por meio de registro de entrevistas com questões abertas.  Ferramentas de representação geográfica foram utilizadas na  análise espaço-temporal, no entanto, grande parte dos dados registrados e apresentados são de caráter  etnográfico, demonstrando uma transdisciplinaridade presente no estudo. A conclusão é  de  que muitas espécies nativas, utilizadas na alimentação dos antigos indígenas dessa etnia, desapareceram das roças de seus descendentes, bem como, grande parte dos pratos da culinária tradicional. Os motivos foram: o abandono de áreas tradicionais, devido à pressão do avanço da frente colonial-pecuarista dos luso-brasileiros  sobre o território tradicional Xakriabá, e, mais recentemente, a chegada de alimentos industrializados. 

Palavras-Chave: Alimentação, Oralidade, Indígena, Xakriabá.




Em 2012.
Localização do território Xakriabá em 2012. Org. Rodrigo Santos. 


Abstract
We present elements of the diet of  the Xakriabá, an indigenous ethnic group, according to their elders' oral accounts, collected in villages of  the municipality of São João das Missões, State of Minas Gerais, Brazil. The aim of this research, based on semi-direct interviews and life histories, was to answer the following questions: What kind of food (and ingredients) that they had in the past are no longer part of their diet? Which factors have contributed to diet change?  Tools geographical representation were used to analyze space-time, however, much of the recorded and presented data are ethnography, demonstrating a transdisciplinarity in this study.  As a conclusion, many native food species are no longer cultivated, and most dishes of their traditional cuisine have disappeared. The main reasons for these changes are, first, the pressure caused by  the Luso-Brazilian colonizing front, and then, the arrival of industrialized food.

Keywords: Food, Oral History, Amerindians, Xakriabá.


Résumé
L’article présente l’alimentation des Indiens Xakriabá, à partir de témoignages oraux de membres âgés de cette ethnie  recueillis à São  João das Missões, dans  l’état de Minas Gerais, au Brésil. L’objectif de la recherche, menée à partir d’entretiens semi-directifs et de recueils d’histoires de vie, a été de répondre aux questions suivantes: Quels  aliments (ingrédients et plats) consommés dans le passé ne font plus partie de l’alimentation actuelle des Xakriabá? Quelles sont les causes de ces changements?  Outils de la représentation géographique ont été utilisés pour analyser l'espace-temps, cependant, la plupart des enregistrées et présentées données sont ethnographie, ce qui démontre une transdisciplinarité dans cette étude.  En conclusion, de nombreuses espèces végétales, utilisées dans l'alimentation traditionnelle de ce groupe amérindien, ne sont plus cultivées aujourd’hui, et de nombreux  plats qui leur étaient associés ne sont plus cuisinés. Les causes principales sont, d’une part, l’avancée du front de colonisation luso-brésilien qui, à partir du 17e  siècle, a progressivement repoussé les Indiens en marge des meilleures terres et, d’autre part, plus récemment,  l'arrivée des aliments industrialisés. 

Mots-Clés: Alimentation, Oralité, Amérindiens, Xakriabá.



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Clique aqui para acessar o artigo original, publicado na revista Ateliê Geográfico - ISSN: 1982-1956, v. 6, n.3 (Ed. Especial), out/2012, p. 72-94, editada pelo Instituto de Estudo Sócio-Ambientais, da Universidade Federal de Goiás.

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Caso Tupinambá de Olivença

A questão que o povo Tupinambá de Olivença (Ilhéus-BA) vêm sofrendo nos últimos anos com a usurpação de suas terras e violência sobre suas lideranças, foi tema de uma apresentação conjunta, onde o cacique Tupinambá Alício Francisco¹, e o professor Carlos Santos², da Universidade Estadual Santa Cruz, de Ilhéus, falaram a respeito.

O professor Carlos iniciou sua exposição apresentando um pensamento de E.P. Thompson sobre leitura inversa: “ver na visão do branco, viajante, o que eles estavam escondendo”. Isto porque a história oficial tradicionalmente sempre foi escrita pelos colonizadores, não há referências que enfoquem os indígenas, suas ações e pensamentos. Assim, é necessário ler nos antigos textos o que eles estavam escondendo. Tentar decifrar isto nos textos.

Ele disse que o reconhecimento étnico dos Tupinambá de Olivença é de 2002. E reclama que 

no dia-a-dia todos eles são pejorativamente taxados de índios pelos não-índios, mas quando entra a questão fundiária, não são mais considerados como tal.

O professor questiona o uso das fontes oficiais, dos documentos elaborados por representantes do Estado colonizador, como os arquivados na Torre do Tombo em Lisboa:

Quem me garante que essa documentação é verdadeira? Que não foi forjada para justificar a colonização? É diferente da fonte oral? Não foi feita por apenas uma das partes? Seria imparcial? (...) Entre a história e a memória eu fico com esta. A memória é a história.

Dessa forma ele defende que a oralidade é tão ou mais válida quanto a documentada, pois é uma outra versão, de uma das partes. Ele nega conceder “valor a uma documentação do período colonial ou posteriores que negam a existência dos Tupinambá em Olivença”, pois acredita que este povo pode até ter sido massacrado, mas nunca exterminado.

Ele diz que “toda a classificação é um exercício de poder, de acordo com seus interesses” citando Michael Foucault. A começar pelo termo aldeia, que é uma palavra portuguesa, usada por eles para classificarem os modos rústicos de vida de sua população camponesa. Logo transplantaram o mesmo termo para o outro lado do oceano, mas a conotação deveria ser outra.

O Cacique Alício, liderança do povo Tupinambá de Olivença, disse que não há porque generalizar os indígenas a partir de estereótipos ou mitos de determinado povo. Ele acredita que 

da mesma forma que tem o índio preguiçoso e o índio trabalhador, tem o negro e o branco preguiçoso e trabalhador.

Ao se tratar da etnia Tupinambá, o professor e historiador Carlos disse que os atuais são uma “farofa” de etnias que sobreviveram a diversos massacres:

Nessa farofa o tempero mais forte foi o Tupinambá. Não que não tenham outros temperos, mas esse se destacou hoje. (...) No futuro, após a terra estar demarcada, virá movimentos internos de auto-identificação.

Nesta mesa tive uma surpresa, o professor Carlos quando chegou à sala e tomou um lugar junto aos alunos, pouco se diferenciava dos outros indígenas estudantes. Aliás, ele afirma ser descendente dos Pankararu de Pernambuco. Mas o conhecimento que esse jovem doutor nos proporcionou, foi magnífico.

Um dos aprendizados que tive reforçado foi o uso da memória, da história oral para contar a versão dos excluídos da história oficial. Este caminho eu já estou utilizando em minha pesquisa, que trata de mostrar os locais por onde se estendiam os territórios dos povos do Planalto Central.

Também me surpreendeu a própria história dos Tupinambá de Olivença, um povo que na verdade são vários, e que se reuniram sob a denominação de uma das etnias formadoras, para garantir a sua identidade indígena. Isto também ocorre com diversos outros grupos ressurgentes, como os Xakriabá, os Pataxó, e de certa forma até entre os Fulni-ô, pois na verdade são refugiados de diversas origens étnicas, que para sobreviver do genocídio luso-brasileiro buscaram uma aliança inter-étnica ou até mesmo a miscigenação entre tribos.

Esta mesa também veio a reforçar a idéia de que muitos conflitos fundiários que sofrem diversos povos indígenas no Brasil são semelhantes, estão vinculados a enganações e ocultações de informações por meio de órgãos oficiais na história do país, bem como o pensamento de integração e eliminação do componente indígena da sociedade brasileira.

A minha perspectiva é de que oportunidades como a oferecida pelo nosso curso de mestrado, com cotas para indígenas poderem receber titulação acadêmica, tragam mais “Carlos” no futuro. E que eles possam gerar outros, e outros... Novos pensadores indígenas no Brasil e no mundo.

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Graves violações aos direitos humanos de povos indígenas, tema de aula na disciplina "Questões Indigenistas na Contemporaneidade", 1º semestre de 2012. Mestrado Profissional em Sustentabilidade junto a povos e terras indígenas, Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS)Universidade de Brasília (UnB).
¹ Alício Francisco, cacique da etnia Tupinambá de Olivença, Ilhéus, Bahia.
² Carlos José Santos, historiador, mestre e doutor em arquitetura e planejamento, professor da Universidade Estadual Santa Cruz (UESC), Ilhéus, Bahia.