Os Gerais no tempo e no espaço

Um estudo interdisciplinar dessa toponímia de Cerrado

Rodrigo Martins dos Santos
Monica Celeida Rabelo Nogueira


Introdução 

Qual a origem da toponímia Gerais? Como se caracterizam os Gerais? Onde se localizam? Estas são algumas perguntas que orientam este capítulo. Para respondê-las, apresentamos inicialmente no presente texto alguns indícios desse termo na leitura do romance Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, estabelecendo nexos com a cartografia histórica sobre as origens desse termo e da história social à qual se relaciona. Nas seções seguintes, partimos para o uso de instrumentos de análise das paisagens para descrever a fisiografia dos Gerais, primeiramente a partir da regionalização apontada por Aziz Ab’Saber em seus Domínios de Natureza e, em seguida, buscando apresentar sua natureza peculiar. Ao final, propomos critérios de identificação dessa toponímia específica do Domínio dos Cerrados, os Gerais. 

O escrito aqui apresentado se relaciona com diferentes áreas do conhecimento, como a história, a geografia, a antropologia e a linguística, configurando-se como um esforço interdisciplinar para a compreensão de aspectos históricos, socioculturais e ambientais encapsulados pelo topônimo Gerais. Afinal, o ato de nomear um acidente geográfico, físico ou humano depende, na maioria das vezes, de elementos extralinguísticos (Dick, 1999). 

O presente texto é baseado na pesquisa “O Gê dos Gerais: elementos de cartografia para a etno-história do Planalto Central: contribuição à antropogeografia do Cerrado” que combinou o levantamento e a análise de dados históricos, cartográficos e de campo em uma investigação sobre a dinâmica de ocupação indígena no centro do Brasil. O mapa de Curt Nimuendajú1 foi ponto de partida para os autores, que mobilizaram também mapas de Čestmír Loukotka2 e de arquivos públicos históricos do Brasil e de Portugal, alguns dos quais revisitados aqui, na análise sobre o topônimo Gerais. 

O esforço de discussão sobre essa categoria tem, além de um valor histórico evidente, relevância para os estudos do Cerrado, nas interfaces entre geografia física e cultural. As áreas de Gerais (ou de planaltos e chapadas) estão altamente ameaçadas, desde a década de 1970, por serem campo prioritário de expansão de monocultivos de larga escala (especialmente a soja e o eucalipto). Mas os Gerais constituem-se também em referência fundamental para povos e comunidades tradicionais do bioma, entre geraizeiros, geralistas, veredeiros e comunidades de fundo de pasto, que exercitam sua política de identidade com forte apelo à conservação dessas áreas, costumeiramente de uso comum, seja para o extrativismo de espécies nativas, seja para a criação de gado. Sendo assim, há uma disputa em curso e revisitar a categoria Gerais pode contribuir para a valorização dessa porção do Cerrado, enquanto paisagem e patrimônio, natural e humano.

(...)

Figura 1 – Mapa do julgado de Pracatu, comarca de Sabará (Rio das Velhas), capitania de Minas Gerais, elaborado no século XVIII



(...)

Considerações finais 

Como vimos, Gerais é uma toponímia que remonta pelo menos ao século XVIII, sendo ainda utilizada no presente por povos e comunidades tradicionais para designar as chapadas recobertas por campos-cerrados. Para essas comunidades a categoria é não só corrente, mas carregada de sentidos, relacionados à sua história e aos seus modos de vida. 

A região dos Gerais, no Domínio dos Cerrados, abrange o norte e noroeste de Minas Gerais, o oeste da Bahia, o sul do Piauí e do Maranhão, o sudeste do Tocantins e o nordeste de Goiás. Por ser uma região campestre e plana, tornou-se habitat de diversas espécies da fauna apreciadas por sociedades caçadoras, como os povos Jê, originários dos Gerais. Há também a ocorrência de uma grande diversidade de espécies arbóreas, arbustivas e gramíneas nos Gerais. Com as invasões luso-brasileiras setecentistas, foi introduzida a pecuária na região. Nos últimos anos, a grande ameaça aos Gerais e aos povos e comunidades tradicionais que neles vivem está representada pela agroindústria de commodities, como as monoculturas de soja e eucalipto. 

Em áreas de transição para a Caatinga, a importância dos Gerais se expressa na própria autoidentificação de algumas dessas comunidades, como geraizeiras ou geralistas, associando- as fortemente à paisagem, desde o nome, como um povo desse lugar. Essa vinculação as predispõe a defenderem os Gerais contra os processos que os ameaçam de degradação.

O presente exercício, ao articular elementos de cartografia histórica, literatura e geografia, visou contribuir para uma consideração abrangente (e a sério) da toponímia Gerais. Tão importante quanto reconhecer a profundidade histórica de seu uso, é tomar os Gerais como uma categoria com valor heurístico presente. Afinal, para alguns povos e comunidades tradicionais, Gerais é uma categoria presente e operativa, não uma reminiscência do passado. É uma das paisagens de Cerrado reconhecidas e defendidas, como parte de seus territórios. Neste estudo, esperamos ter demonstrado – de forma reiterativa com relação aos posicionamentos de geraizeiros, geralistas e fundos de pasto – que os Gerais têm história e natureza próprias.


__________ 

continue lendo... 

Clique aqui para baixar o capítulo completo a partir de nosso banco de dados. 


Capítulo de publicado entre as páginas 265 e 283 da obra NOGUEIRA, M. C. R.; PORTELA, C.; SILVA, A. T. R.; SAUER, S. (Org.). Pensamento encarnado: a luta e a produção intelectual de povos e comunidades tradicionais no Brasil. Brasília: Ed. UnB, 2026. 329p. ISBN 978-65-5846-230-9.

Nenhum comentário:

Postar um comentário