Cronotopia dos Gerais

Dimensão temporal e espacial desta toponímia de Cerrado

Rodrigo Martins dos Santos
Monica Celeida Rabelo Nogueira


RESUMO 

Estudo interdisciplinar do termo “Gerais”, abordando-o sob perspectivas históricas, literárias, cartográficas, geográficas e antropológicas. Partindo de nexos geográficos na obra Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, o texto estende-se a fontes cartográficas do século XVIII, identificando os Gerais como uma categoria geográfica e cultural nos chapadões do Cerrado, especialmente no centro-nordeste do Brasil. Caracterizados por relevos planos e vegetação savânica, esses territórios foram historicamente ocupados por povos indígenas, notadamente Jê e, posteriormente, por comunidades tradicionais que desenvolveram formas próprias de territorialidade, centradas no manejo e uso comum da terra, associando seus modos de vida e identidade à paisagem dos Gerais. Hoje, enfrentam ameaças do agronegócio, como monocultivos de soja e eucalipto, e da mineração. A análise propõe critérios fisiográficos para delimitar os Gerais, destacando sua importância histórica, ambiental, cultural e territorial. Argumenta-se que os Gerais constituem simultaneamente uma categoria geográfica, histórica, cultural e territorial do Cerrado, participando ativamente da constituição de modos de vida, territorialidades e identidades. Tal compreensão reforça a necessidade de proteção do bioma e dos direitos territoriais das comunidades tradicionais que o habitam e o conservam.


INTRODUÇÃO 

Qual a origem da toponímia Gerais? Como se caracterizam? Onde se localizam? Qual a sua cronotopia1, ou seja, sua dimensão no tempo e no espaço? Para respondê-las, investigamos de que modo esse termo reúne simultaneamente paisagem e territorialidade, construídas socialmente através de processos históricos de longa duração, permeados por peculiares formas de ocupação e significados sociais que persistem no presente. Para melhor entendê- la, apresentamos inicialmente alguns indícios desse termo na leitura do romance Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, estabelecendo nexos com a cartografia histórica sobre as origens desse termo e da história social à qual se relaciona. Nas seções seguintes, partimos para o uso de instrumentos de análise das paisagens para descrever a fisiografia dos Gerais, primeiramente a partir da regionalização apontada por Ab’Sáber em seus Domínios de natureza, e em seguida buscando apresentar sua natureza peculiar. Posteriormente, propomos critérios de identificação dessa toponímia específica do Domínio dos Cerrados, os Gerais. Posteriormente, discutimos os Gerais como território e categoria identitária, destacando as relações historicamente construídas entre povos e comunidades tradicionais (PCTs) e os ambientes do Cerrado. Com isso, buscamos compreender os Gerais não apenas como uma paisagem do Cerrado, mas como uma categoria histórica, territorial e identitária dotada de significados sociais persistentes. 

O estudo articula diferentes áreas do conhecimento, como a história, a geografia, a antropologia e a linguística, configurando-se como um esforço interdisciplinar para a compreensão de aspectos históricos, socioculturais e ambientais encapsulados pelo topônimo Gerais. Afinal, o ato de nomear um acidente geográfico, físico ou humano depende, na maioria das vezes, de elementos extralinguísticos (Dick 1999). 

O presente texto é baseado na pesquisa e dissertação de mestrado O Gê dos Gerais – Elementos de cartografia para a etno-história do Planalto Central: Contribuição à antropogeografia do Cerrado, de autoria de Rodrigo Martins dos Santos, defendida em 2013 sob orientação de Ludivine Eloy e coorientação de Mônica Nogueira no Mestrado Profissional em Sustentabilidade junto a Povos e Territórios Tradicionais (Mespt) da Universidade de Brasília. Essa pesquisa combinou o levantamento e a análise de dados históricos, cartográficos e de campo em uma investigação sobre a dinâmica de ocupação indígena no centro do Brasil. O mapa de Curt Nimuendaju2 foi ponto de partida para o primeiro autor, que mobilizou também mapas de Čestmír Loukotka3 e de arquivos públicos históricos do Brasil e de Portugal, alguns dos quais revisitados aqui, na análise sobre a toponímia “Gerais”. 

O esforço de discussão sobre essa categoria tem, além de um valor histórico evidente, relevância para os estudos do Cerrado, nas interfaces entre geografia física e cultural. As áreas de Gerais (ou de planaltos e chapadas) estão altamente ameaçadas, desde a década de 1970, por serem campo prioritário de expansão de monocultivos de larga escala (especialmente a soja e o eucalipto) e, mais recentemente, da mineração. Mas os Gerais constituem-se também em referência fundamental para povos e comunidades tradicionais (PCTs) do bioma, entre geraizeiros, geralistas, veredeiros, vazanteiros e comunidades de fundo e fecho de pasto, que exercitam sua política de identidade com forte apelo à conservação dessas áreas, costumeiramente de uso comum, seja para o extrativismo de espécies nativas, seja para a criação de gado. Sendo assim, há uma disputa em curso em torno dos usos, significados e formas de apropriação dos Gerais; e revisitar essa categoria pode contribuir para a valorização dessa porção do Cerrado enquanto paisagem e patrimônio, natural e humano.

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Figura 4. Recortes da Carta da Capitania de Pernambuco. Fonte: BN (1823).

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CONSIDERAÇÕES FINAIS 

Ao longo do texto, buscamos apreender a cronotopia do topônimo “Gerais” por meio da literatura, da cartografia histórica, da análise da paisagem e de sua dimensão social e histórica, expressa nas territorialidades construídas por povos e comunidades tradicionais. A permanência da denominação Gerais ao longo de séculos evidencia a sobreposição de diferentes temporalidades em uma mesma paisagem, conectando registros cartográficos coloniais, formas tradicionais de uso da terra e identidades. 

A análise realizada demonstra que a articulação entre processos históricos e sociais em torno dos Gerais como topônimo brasileiro remonta, pelo menos, ao século XVIII, permanecendo viva no presente tanto como designação de uma paisagem específica do Cerrado, associada às chapadas recobertas por campos cerrados, quanto como categoria territorial mobilizada por grupos sociais tradicionais. Para essas comunidades, a categoria é carregada de sentidos, relacionados à sua história e aos seus modos de vida. 

A região dos Gerais, no Domínio dos Cerrados, abrange o norte e noroeste de Minas Gerais, o oeste da Bahia, o sul do Piauí e do Maranhão, o sudeste do Tocantins, o nordeste de Goiás, além do Distrito Federal. Por ser predominantemente campestre e plana, tornou-se hábitat de diversas espécies da fauna caçadas por sociedades indígenas historicamente associadas à região, a exemplo dos Xakriabá, tradicional povo Jê dos Gerais. Há também uma grande diversidade de espécies arbóreas, arbustivas e gramíneas nos Gerais. Com as invasões luso-brasileiras setecentistas, foi introduzida a pecuária. Nos últimos anos, a grande ameaça aos Gerais e às populações tradicionais que neles vivem está representada pela expansão de commodities da agroindústria monocultural de soja e eucalipto, bem como da mineração. 

Contudo, os Gerais não constituem apenas uma categoria fisiográfica. Como procuramos demonstrar, essa denominação também permanece viva entre coletividades que associam seus modos de vida, práticas produtivas, memórias coletivas e formas de pertencimento a essa paisagem do Cerrado. 

Em áreas de transição para a Caatinga, a importância dos Gerais se expressa na própria autoidentificação de algumas dessas comunidades, como geraizeiras, associando- as fortemente à paisagem, desde o nome, como povo desse lugar. Essa vinculação predispõe à defesa dos Gerais contra os processos que os ameaçam de degradação. 

O presente exercício, ao articular elementos de cartografia histórica, literatura e geografia, visou contribuir para uma consideração abrangente e consistente do topônimo Gerais. Sua permanência ao longo de mais de dois séculos evidencia a capacidade dessa denominação de condensar e transmitir experiências históricas, paisagens e territorialidades socialmente construídas. Tão importante quanto reconhecer a profundidade histórica de seu uso, é tomar os Gerais como uma categoria com valor heurístico presente. Afinal, para alguns povos e comunidades tradicionais, Gerais é uma categoria presente e operativa, não uma reminiscência do passado. É uma das paisagens de Cerrado reconhecidas e defendidas, como parte de seus territórios.


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Clique aqui para acessar o artigo publicado no volume 51 da revista Anuário Antropológico, 2026. DOI https://doi.org/10.4000/16nqj. ISSN 2357-738X.

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