Geografia Humana de Colônia Paulista e Ilha do Bororé (bairros de Parelheiros e Grajaú, cidade de São Paulo)

Trecho do texto publicado em 2005

OCUPAÇÃO DAS TERRAS E POPULAÇÃO


1. Os Caminhos



Sede de sítio na antiga Estrada Velha da Colônia, provável Caminho de Conceição de Itanhaém.
Foto: Rodrigo Santos, 2003.

Poucos são os registros de ocupação efetiva do território antes da implantação da Colônia Alemã na região. Segundo Zenha (1977) não há nenhum registro de aldeamentos indígenas pré-Cabralinos na região localizada entre os afluentes Bororé e Taquataquissetiba (hoje Taquacetuba), do Rio Grande, região também conhecida por Bororé ou Ilha do Bororé como foi chamada após a construção da Represa Billings em 1926, projetada pelo Engenheiro estadunidense Asa White Kenney Billings, para a companhia The São Paulo Trainway, Light and Power Company Ltd.
(...)
No entanto, a hipótese mais provável é que a construção dessa casa se deu no final do século XIX, por uma família descendente de colonos alemães (os Reimberg). Cujo apelido do chefe da família – seu Periquito – também denominou a casa e a estrada que passava em sua frente, a antiga Estrada do Curucutu (atual Av. Kayo Okamoto). Atualmente [2005] esta casa encontra-se em processo de tombamento pelo Departamento de Patrimônio Histórico da Secretaria da Cultura do município.



Casa de taipa de pilão abandonada, construída por volta de 1870 na antiga estrada do Curucutu entre os bairros de Bororé e Colônia. Seu provável construtor foi um descendente dos alemães da Colônia, da família Reimberg.
Foto: Rodrigo Santos , 2003.



2. A Colônia Alemã 



Cemitério de Colônia Paulista, Parelheiros, São Paulo. Primeiro cemitério protestante do Brasil, construído em 1840.
Foto: Rodrigo Santos, 2003.


Apesar de servir de passagem entre o litoral e o planalto, a vasta região situada entre o ribeirão Cocaia e a Escarpa da Serra do Mar, poderia possuir alguns poucos caboclos e indígenas espalhados pelo território, mas somente será ocupada efetivamente com a implantação da Colônia Alemã entre os ribeirões Taquacetuba e Vermelho, numa feição geomorfológica denominada de Cratera da Colônia, um astroblema formado pelo choque de um meteoro a cerca de 35 milhões de anos (BELLENZANI, 2000) que distava seis dias de burro/mula a partir de Santo Amaro (GARANHUNS, 1977).
(...)
Mesmo após diversas tentativas dos alemães em fazer cumprir o que estava previsto, pois o diretor e a província não permitiam que procuradores dos colonos chegassem ao Imperador, alguns decidem se assentar no local. Porém com pouco sucesso, dos 229 indivíduos (62 famílias) contraentes das terras do Sertão de Itaquaquecetuba, em dez anos (1839) somente 157 estavam espalhados por Santo Amaro, em terras fora da Colônia, e em 1847, apenas nove famílias, chegando ao número de quatro famílias três anos depois. Levando Zenha (1950) a dizer que “assim foi a decadência de empreendimento que custou tanto dinheiro e tanto sacrifício. O lugar que deveria transformar-se numa cidade, definhou em tapera com três ou quatro ranchos pobres ao redor de um cemitério”, este conseguido a duras custas, pois grande parte dos imigrantes eram protestantes e não podiam ser enterrados em cemitério católico, tampouco na igreja.


3. Os imigrantes 



Senhora Vitalina Reimberg (80 anos [2003] - in memorian), descendente de alemães da Colônia. Antiga estrada do Curucutu.
Foto: Rodrigo Santos, 2003.

A partir dos alemães, Santo Amaro passa a ser considerado o “celeiro da capital”, sendo o único município da província a produzir batatas, além de fornecer arroz, feijão, milho e mandioca à São Paulo. Também comercializavam no Mercado de São Paulo gado, aves, mucuta (canela e lenha), madeira e carvão. Eles fundaram vilas (Cipó e Parelheiros) abriram estradas, como a antiga estrada de Parelheiros (atual Av. Sen. Teotônio Vilela e Av. Sadamu Inoue), que liga o Rio Bonito ao município de Embú-Guaçú, e que possibilitou a ocupação do vasto sertão que a cercava, regado por inúmeros cursos d’água e povoado pela imensa Mata Atlântica.
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Na Revolução Constitucionalista, foi escalado um destacamento santamarense, e segundo um antigo casal de moradores da região do Bororé, José Antônio Domingues, nascido em 1916 e Amália Guilger Domingues, de 1921, diversas pessoas “fugiam” do alistamento e se escondiam nas matas existentes no local. Ele (seu José) tem avó alemã e avô índio, o que demonstra a miscigenação dos alemães com os nativos; ela é descendente de alemães.Com a Segunda Grande Guerra a Colônia Alemã foi obrigada a mudar seu nome para Colônia Paulista.




Templo budista dedicado a deusa Quan Inn. Colonização extremo-oriental. Cabeceira do ribeirão Cocaia, Grajaú, São Paulo.
Foto: Rodrigo Santos, 2003.


4. O ‘progresso’ e a represa Billings

A região do Bororé localiza-se em território do antigo município de Santo Amaro, anexado à capital paulistana pelo interventor federal no Estado Armando de Salles Oliveira em 25 de fevereiro de 1935 pelo decreto estadual 6.983 (BERARDI, 1981), rebaixando-a a subprefeitura do município de São Paulo, com o administrador nomeado pelo prefeito da Capital.
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Assim, diversas são as modificações no espaço que possibilitaram o avanço urbano-industrial à região de Santo Amaro. A construção da Auto-Estrada (atual Avenida) Washington Luíz em 1928, interligando à capital às áreas das represas, faz surgir residências de alto padrão ao longo da ‘Estrada de Rodagem’, pois era própria para o tráfego de automóveis, símbolo do progresso e da modernidade. Aparecem balneários nas margens das represas. E é construído o Aeroporto de Congonhas: “Época de Ouro à Santo Amaro” como Berardi (1981) a adjetiva, dizendo que “Santo Amaro estava vendo chegar o progresso” (BERARDI, 1981, p. 101). Outras obras como o Autódromo de Interlagos e o bairro jardim de mesmo nome, vieram logo em seguida, em 1930 (PONCIANO, 2001).


5. A industrialização e o crescimento urbano

O decreto estadual que anexou o município de Santo Amaro à Capital do Estado considerava que o motivo pelo qual se deu tal decisão fora em virtude do plano urbanístico da Capital que planejava construir um de seus mais atraentes lugares de recreio, com criação de hotéis, estabelecimentos balneários, cassinos, melhoria dos meios de comunicação. Além do projeto de industrialização da região, aproveitando tanto as facilidades de comunicação (marginais e ferrovias previstas na construção do canal do rio Pinheiros), como a geração de energia elétrica e abundância d’água; tanto que levou o industrial Francisco Matarazzo a montar um loteamento industrial no bairro de Jurubatuba.
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“Em busca de alojamento barato, uma população bastante numerosa escolheu Santo Amaro para residir. A possibilidade de encontrar aluguéis mais baixos ou até mesmo casa própria, com algum sacrifício, surgia com os numerosíssimos loteamentos” (BERARDI, 1981). Assim, o aspecto tipicamente rural e caipira tanto da vila de Santo Amaro como de seu sertão vai dando lugar para o crescimento da grande mancha urbana metropolitana paulista.



Loteamento irregular se expandindo entre a mata. Jardim Noronha, Grajaú, São Paulo.
Foto: Rodrigo Santos, 2003.


6. Os migrantes




Loteamento irregular Jardim Noronha, Grajaú, São Paulo.
Foto: Rodrigo Santos, 2003.

“Como centro dinâmico do país e capital de Estado que concentrava 35,6% da Renda Interna do Brasil em 1969, São Paulo encontrava à frente de um processo de industrialização acelerada, transformando-se num vasto conglomerado populacional de aproximadamente 11 milhões de habitantes, dos quais 96% vivendo em área urbana (projeção feita para 1975)” (MIRANDA, 2002, p. 23).
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Apesar de grande parte das ocupações serem desordenadas temos alguns exemplos de bairros ordenados e que pouco agridem a paisagem e o meio ambiente, um deles é o Shangri-lá, situado no final da Av. Dona Belmira Marin, junto à primeira balsa, que possui áreas verdes e praças protegendo cabeceiras de drenagem e várzeas, suas ruas não são asfaltadas, porem cascalhadas, e os lotes não são totalmente impermeabilizados. Outro exemplo, porém que não se encontra na região estudada, é o Jardim Pinheiros, no Município de São Bernardo do Campo, situado próximo à represa Billings, este bairro iniciou-se indevidamente após a publicação das Leis de Mananciais porém, após a conscientização dos moradores, passou a promover um paisagismo mais ecológico, inclusive no calçamento de ruas e passeios, tal qual no tratamento de seus efluentes líquidos e direcionamento adequado dos resíduos sólidos (coleta seletiva, etc.). Estes São alguns exemplos de ‘Bairros Ecológicos’ que podem ser utilizados como base para o paisagismo de outros com uso das terras e ocupações desordenadas.

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Para ver o texto na íntegra, baixe-o aqui.

Clique aqui para acessá-lo diretamente no site da Subprefeitura de Parelheiros - Prefeitura da Cidade de São PauloOu, Clique aqui para baixá-lo de nosso banco de dados. 

Esse material foi adaptado do capítulo 5 da monografia APA Bororé - subsídios a implantação, de 2003.

12 comentários:

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    1. E temos muito mais coisas belas escondidas pela cidade...

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  2. Bororé não é somente tudo o que está escrito aqui, também é uma maravilha em São Paulo. Podemos acordar e sentir o vento puro e os pássaros cantando. Depois de um dia cansativo de trabalho, temos toda a vista de uma represa esplendida e viva! Deus abençõe este lugar sempre!!!!!!!

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    1. Maravilha! Continue a contribuir com a qualidade ambiental de nossa ilha!

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  3. Prezados Srs.,
    Gostaria de saber o motivo do nome da rua do Antigo Cemitério Alemão não ser de algum ilustre morador da Colônia ...
    Alguém sabe o motivo do nome : Rua Sachio Nakao, 28 - Colônia, São Paulo - SP, 04892-170
    Grata e parabéns pelas informações do blogspot.

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    1. Prezada Marilene,

      Os nomes de logradouros são batizados oficialmente pela Câmara Municipal da cidade.

      Os nomes de imigrantes japoneses foram sugeridos pelos vereadores que representam essa comunidade na Câmara, nas décadas de 1980, 1990 e 2000. Infelizmente os políticos da cidade não dão muita importância à história dela, mas buscam apenas angariar mais votos.

      Sugiro a ti ir à Câmara Municipa, e falar com os vereadores a respeito disso. Procure mais de um e faça a sugestão.

      Abaixos assinados também podem servir como sugestão de alterações de nome de logradouro, para isso, deve-se acrescentar os motivos da mudança.

      Agradeço pela leitura!

      Rodrigo Martins dos Santos

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  4. é bom eu esclarecer que gostaria de saber o porquê não ser um nome de algum personagem alemão da imigração de 1824.

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    1. Parece que alguns personagens alemães continuam a figurar como nome de logradouro na Colônia Paulista. Como exemplo dos nomes Roschel, Reimberg, e outros.

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  5. Muito bacana ver que a história da minha família não foi totalmente apagada da história. Muito obrigada! Samy Reimberg'

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    1. Essa e a história de todos nós querida! Continue a fazer história!

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  6. Deviam deixar os nomes de origem indigenas ou deixar os de origem Alema.Nao sei pra que tanto nome Japones se eles ja sao donos do bairro da Liberdade

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    1. Boa pergunta a ser fazer aos vereadores. Recolha abaixo-assinados com moradores e procure os vereadores da região para que façam as devidas alterações. A história de Parelheiros e Grajaú não pode ser apagada! Valeu pelo comentário!

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